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O Nobel da Paz e as mulheres

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O Comité Nobel quis lembrar-nos que os EUA e a Rússia estão entre os Estados que não cumpriram a obrigação de destruir o seu armamento químico dentro do prazo estipulado - abril de 2012

Victor Ângelo

Esta é a altura do ano em que se discute a decisão relativa ao Prémio Nobel da Paz. E, como sempre, as opiniões dividem-se. Trata-se, na verdade, do Nobel mais sujeito a polémicas, que mais interpretações políticas suscita. De tempos a tempos, o Nobel da Literatura também dá margem para leituras políticas. As grandes controvérsias estão, porém, associadas ao Prémio da Paz. Isto constitui, segundo penso, um dos méritos do galardão. Tudo o que, com autoridade e elegância, ponha em causa ideias feitas e o pensamento dominante e enviesado, deve ser considerado como enriquecedor. Uma das vantagens destes prémios consiste no valor dado a atores e problemáticas que até então apenas ocupavam, na melhor das hipóteses, as franjas da atenção pública.   

O prémio de 2013 coube à Organização para a Proibição das Armas Químicas (OPAQ). Ao reconhecer o trabalho de uma agência da ONU, os noruegueses do Comité do Nobel da Paz foram consistentes com a maneira de ver das elites do seu país. Tenho mantido, desde há anos, relações de trabalho frequentes com políticos e intelectuais da Noruega e habituei-me vê-los como defensores e promotores ativos do sistema das Nações Unidas. São elites que conseguem conciliar um profundo sentimento nacionalista - muito apegadas a tudo o que seja norueguês, da cultura à natureza que define a beleza agreste das paisagens - com uma militância internacionalista que aposta no reforço das instituições onusianas. Premiar a OPAQ aparece assim como uma maneira de frisar que existem instrumentos internacionais que devem ser utilizados na resolução de conflitos. A essa mensagem o Comité acrescentou duas outras. Primeiro, lembrou-nos que os Estados Unidos e a Rússia estão entre os Estados que não cumpriram a obrigação de destruir o seu armamento químico dentro do prazo estipulado - abril de 2012. Segundo, voltou a sublinhar que o fim das armas químicas faz parte de um imperativo moral mais amplo, que inclui também a abolição das armas nucleares.

 

Embora reconheça as razões da escolha deste ano, creio dever acrescentar dois comentários.

Começo por uma nota relacionada com a Síria. A OPAQ está no terreno, a procurar levar a cabo um programa de destruição do arsenal químico de Assad. O Prémio Nobel dá-lhe certamente maior credibilidade no desempenho dessa missão bem complexa. Não devemos esquecer, no entanto, que para além do que se espera da OPAQ, há um conflito com custos humanos elevadíssimos, que tem de ser resolvido. E que a sua resolução passa por um diálogo político entre os sírios, que exclua todos os tipos de extremistas e beneficie do apoio direto do Conselho de Segurança da ONU. A presença da OPAQ no terreno deve ser vista como uma porta de entrada para um processo político desse tipo.

Termino com uma referência a um candidato ao Nobel deste ano. O médico-ginecologista congolês Denis Mukwege era um dos favoritos, mas o Comité decidiu de outro modo. Há, no entanto, que encontrar maneira de homenagear o trabalho que tem feito, ao longo de vários anos, no tratamento e acompanhamento de um número sem fim de mulheres e raparigas vítimas de violências sexuais, por causa do caos, da proliferação de grupos armados e das ganâncias que dizimam o Leste da República Democrática do Congo. Reconhecer a grandeza do dr. Mukwege é fundamental para que nos recordemos de que, em certas partes do mundo, a violação sistemática das mulheres continua a ser uma arma de guerra. Maciça, destruidora e inaceitável.