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O Mali e a defesa da Europa

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Embora nos custe reconhecer tal facto, muitos cidadãos europeus deixaram de entender para que servem os militares

Victor Ângelo

A campanha militar que o Presidente Hollande resolveu lançar no Mali tem vários méritos. Primeiro, ergue, de imediato, uma barreira eficaz contra a progressão dos extremistas em direção à capital. Segundo, permite sublinhar a urgência da situação e a necessidade de uma intervenção robusta da comunidade internacional. A abordagem adotada até agora pelo Conselho de Segurança da ONU, dando a primazia e a responsabilidade aos países da África Ocidental, é irrealista. Não existem meios militares nem capacidade operacional, na vizinhança do Mali, capazes de fazer frente a este tipo de rebeldes. É preciso um envolvimento mais amplo. Da Europa, em particular, que não pode admitir a existência de uma vasta área de radicalismo terrorista perto da sua porta. Para mais, capaz de desestabilizar uma região que faz de charneira entre a África árabe e a negra. Terceiro, a decisão francesa lembra-nos que a participação ativa na resolução de crises deve ser um dos objetivos primordiais das nações mais desenvolvidas. É importante sublinhar este ponto, numa altura em que se debate, por toda a parte, quais deverão ser, nos próximos anos, as funções e a configuração das forças militares europeias. 

Há dias, numa discussão em Bruxelas sobre estas matérias, os participantes fecharam-se num círculo estreito, centrado nos cortes orçamentais e na redução dos efetivos que estão a ocorrer em cada Estado da União. A participação militar da Europa em missões de manutenção de paz, no quadro das Nações Unidas, foi apenas sussurrada de passagem. Estava claramente fora do radar. Trata-se de uma falha grave. Para além da obrigação moral que a UE deveria assumir, respondendo pela sua quota parte de responsabilidade internacional, há outro aspeto que conviria ter em conta. A opinião pública dá valor à participação de forças armadas europeias no apaziguamento de conflitos que ameacem a paz e a segurança das populações noutras partes do mundo, desde que essas operações tenham a cobertura legal da ONU. Isto é particularmente relevante, numa altura em que a batalha da opinião pública europeia parece estar em riscos de ser perdida pelos militares, fora uma ou duas exceções. Embora nos custe reconhecer o facto, a verdade é que muitos cidadãos deixaram de entender para que servem os militares, salvo nalguns domínios muito concretos e no que respeita à simbologia ligada aos atributos da soberania. É pouco. É preciso propor novos grandes desígnios. Contribuir para a paz, a democracia, a dignidade e a ação humanitária é certamente um deles.

Não será o único desafio. Um outro, de peso, tem que ver com a racionalização dos recursos disponíveis. Os Estados membros da UE despenderam, em 2011, cerca de 200 mil milhões de euros na área da defesa, com Portugal a representar menos de 1,5% do conjunto. Como cada um gasta à sua maneira, o que se verifica é uma gama de investimentos pouco eficientes. O resultado final fica muito aquém do que seria possível, se houvesse melhor coordenação, partilha de meios, acordo sobre as opções operacionais mais determinantes, formação conjunta, programas de aquisição ou de pesquisa comuns. E, contrariamente ao que alguns pensam, uma maior comunhão de esforços é possível sem que isso acarrete uma erosão da soberania nacional. O que ameaça a soberania e a segurança de todos nós é ver as forças armadas a mirrar, num canto, dentro das suas fronteiras, sem meios nem direção política estratégica e cada vez mais longe da linha de interesse e de entendimento dos cidadãos.