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O exemplo letão

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A Letónia pode ser um dos países mais pobres da União. Mas ensina-nos a olhar em frente. Com dignidade

Victor Ângelo

Como nos anos anteriores, passei as três ultimas semanas de setembro em Riga. Em relação a Portugal, a Letónia fica no outro extremo da Europa, no sentido próprio e no figurado. Estar na sua capital faz-nos refletir sobre o nosso país. Além da beleza da cidade velha, que foi inteiramente renovada, da arquitetura espetacular dos edifícios Art Nouveau, de centenas de prédios que não se deixaram corromper pelos interesses do betão e das torres de vidro e plástico, dos jardins públicos impecavelmente mantidos, enriquecidos com esculturas de bronze que ninguém destrói nem furta, deslumbra-nos a disciplina e a elegância das suas gentes. O país pode ser um dos mais pobres da UE. Mas ensina-nos a olhar em frente, com dignidade. Na vida de uma nação, a postura cívica dos cidadãos é meio caminho andado.

Desta vez, encontrei um novo tipo de preocupações. Em janeiro, a Letónia perde a moeda nacional e adota o euro. Numa economia de baixos salários e de pensões reduzidas, o receio popular tem que ver com o possível aumento do custo de vida. Cerca de 60% dos eleitores, segundo uma sondagem recente, são contra a adesão à Eurozona. No entanto, a liderança nacional considera que se trata de um passo político importante, como o fora a entrada para a NATO, em 2004. Faz parte da integração num espaço de liberdade, para um povo que não perde a memória do que foi a ocupação soviética. É, também, uma maneira de nos lembrar que apenas uma Europa mais integrada pode ser um parceiro à altura da vizinha Rússia. Vista de Riga, onde mais ou menos 40% da população tem o russo como língua materna e vive na ambiguidade de quem tem um pé no passado ancestral e outro no liberalismo ocidental, a união da Europa ganha um sentido mais premente. E entende-se melhor a dimensão geoestratégica e a atenção prioritária que os três pilares fundamentais da construção europeia - política, segurança e economia - devem merecer.

A passagem ao euro reforçará a posição dos que advogam a contenção das contas públicas. A Alemanha, a Finlândia, a Holanda e outros passam a ter mais um aliado no Eurogrupo. A Letónia conheceu uma crise financeira profunda, em 2008. Nesse ano e no seguinte, o PIB acumulou uma quebra de cerca de 25%, de longe a maior redução verificada na Europa. O Governo iniciou, então, um programa de cooperação financeira, com o FMI. Reduziu os salários da função pública de uma maneira drástica, com cortes acima dos 30 por cento. Limitou a duração e o montante de muitos dos subsídios sociais. O valor do imobiliário atingiu, nalguns casos, perdas próximas dos 70 por cento. E cerca de 200 mil letões, ou seja, à volta de 10% da população, emigraram para a Escandinávia, o Reino Unido e outras terras. Em 2012, terminado que estava o programa com o FMI, o país voltou a crescer, com uma taxa anual de 5,6 por cento. A dívida pública representa hoje apenas 40% do PIB - um valor bem abaixo dos 60% aceites por Bruxelas e, em proporção, três vezes inferior ao de Portugal - e o défice orçamental está nos 1,2 por cento. Perante isto, os adeptos de Angela Merkel, em vários cantos da Europa, dizem que a austeridade pode ser um sucesso, se houver coragem política, visão estratégica e envolvimento popular.

Olhemos agora para o futuro, desta vez já a partir de Lisboa. Como membro do Eurogrupo, a Letónia será um dos Estados que vão discutir o próximo programa de ajustamento de Portugal, em 2014 - um programa que me parece inevitável. É fácil imaginar a narrativa que Riga nos irá propor.