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O equilibrista

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Um monstro tenebrosamente incompreensível e burocrático, assim o pensam, que só é diferente do seu parente do Loch Ness, porque de vez em quando vem à tona de água e se deixa ver

Que trabalho faz um representante especial do Secretário-geral da ONU? Esta tem sido uma pergunta frequente, durante esta minha estadia de Verão, na terra natal. Também é verdade que, preparando-me para um regresso definitivo, tenho retomado o contacto com gente que não via há décadas.  Antigos companheiros, pequenos e grandes, no quotidiano da vida. Alguns são mesmo pessoas graúdas, nas mais diversas profissões, mulheres e homens viajados, mas para quem a ONU é uma nebulosa sem forma nem definição. Um monstro tenebrosamente incompreensível e burocrático, assim o pensam, que só é diferente do seu parente do Loch Ness, porque de vez em quando vem à tona de água e se deixa ver. 

Todo este imaginário só prova que o trabalho de informação das Nações Unidas, pelo menos em Portugal, não responde às necessidades. Durante anos, houve um escritório de informação da ONU em Lisboa. Acabou por fechar, vítima da filosofia de reestruturação das Nações Unidas, que resolveu centralizar em Bruxelas todas as actividades de comunicação social destinadas à Europa Ocidental. Hoje, só meia dúzia de académicos nacionais, estudiosos do papel que o sistema das Nações Unidas desempenha em matéria de relações internacionais, sabem o que a organização faz. Muitas vezes, o conhecimento que arvoram é altamente especializado. Uns, interessam-se apenas pelas questões do desenvolvimento. Conhecem bem o PNUD, que é o programa ligado aos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio. Outros, fazem o seguimento das questões sociais. Tem uma familiaridade maior com a UNICEF, a OMS, ou a ONUSIDA, entre outras. Depois, há os que mantêm uma ligação intelectual e profissional com certas áreas especializadas, como a agricultura. Sabem, por isso, por que linhas se cose a FAO. Ou a agência que se ocupa dos refugiados, o ACNUR. Até porque o António Guterres deu um rosto familiar a essa instituição.

Nos últimos quinze anos, muitos militares, polícias e alguns civis portugueses estiveram, por algum tempo, ligados às missões de manutenção da paz, aprovadas pelo Conselho de Segurança. Portugal participou, com empenho, nas actividades da ONU nos Balcãs, na segunda metade da década de noventa. Depois, veio a missão em Timor, que tem sido uma escola por onde têm passado muitos homens e mulheres das forças nacionais de segurança. Além disso, tem havido alguma participação noutras operações de paz, no Congo, na Serra Leoa e no Chade. Neste último país, além da presença de oficiais da PSP, que funcionam como formadores e conselheiros de polícia, tem havido uma contribuição muito apreciada de elementos do Grupo de Operações Especiais (GOE).

Com 15 missões em actividade, do Haiti a Timor-Leste, do Sudão e do Congo à zona de fronteira entre a Índia e o Paquistão, e com cerca de 113 000 pessoas no terreno, as operações de manutenção da paz são uma das faces mais visíveis da organização. As missões custam, em média, três vezes menos que as equivalentes, levadas a cabo pela União Europeia ou pelos Estados Unidos. Além das vantagens em termos de custos, as missões da ONU têm uma legitimidade política dificilmente contestável. 

Para todos os que passaram por uma missão de paz, é claro  qual é a função de um representante especial da ONU, enquanto líder, ao nível do terreno, das operações políticas, militares e de segurança. Alguns dirão mesmo, com algum humor, que se trata da última incarnação dos antigos vice-reis, tendo em conta o poder, os recursos e as circunstâncias em que os representantes especiais desenvolvem o seu trabalho. 

Mas como explicar o que faço ao meu antigo colega de escola Carlos Alberto, especialista em doenças reumáticas, ou ao António, com quem joguei ao berlinde, no jardim do Largo de S. Mamede, em Évora, e que hoje é director do departamento internacional de um grande banco? Ou à  prima Luísa do meu querido leitor, que vive em Pombal e conhece bem o sector da construção civil e das energias verdes? Ou ao velho emigrante na Holanda, que tem sempre a paciência de me ler, nestas colunas semanais? 

O papel político, as responsabilidades em termos da construção de um clima de paz e de segurança,  a autoridade sobre vastos meios militares e de polícia, o poder em matéria de administração civil, tudo isso faz parte do pacote. São instrumentos que, aliados à disponibilidade de uma vasta logística, com aviões e tudo o mais, dão a impressão de que se tem um grande poder. Uma missão como a do Chade, com 5 200 soldados, mil e poucos polícias, e 1 800 civis, movimenta quase 2 milhões de dólares por dia. É muito dinheiro. Fica-se com a impressão que o chefe desta máquina toda é um manda-chuva. Mas quem manda são, de facto, os países que são membros do Conselho de Segurança. Com uma atenção muito focalizada nos cinco membros permanentes. O representante especial tem que prestar contas ao Conselho regularmente - no meu caso, de três em três meses. Sem a confiança política dos cinco permanentes, o pretenso vice-rei fica nu. Por isso digo que se trata de um trabalho de trapézio, enquanto equilibrista político.