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A equipa de Barack Obama é jovem, mais aberta às grandes questões globais da segurança internacional, do direito humanitário e da dignidade das pessoas

Estive em Washington na semana passada. Dirigia uma delegação das Nações Unidas. Tivemos reuniões ao nível político nos Departamentos de Defesa e de Estado, na Casa Branca e nas duas câmaras do Congresso.

Os encontros no Senado e na Câmara dos Representantes não saíram do quadro que é habitual  nestas ocasiões: gente bem informada, viva de espírito, que faz muitas perguntas e quer entender qual a estratégia que se está a seguir. Mas as preocupações estão sobretudo relacionadas com as implicações financeiras das operações de paz da ONU no orçamento federal e com o impacto que certas acções de sensibilização das organizações não-governamentais possam ter no eleitorado. Não querem gastar muito dinheiro, mas também não podem dar a entender que as crises humanitárias, como a do Darfur, os deixam indiferentes, insensíveis ao sofrimento humano. Os Senadores e os Representantes continuam a ver o mundo através de um prisma local. Estão fortemente amarrados  à circunscrição que representam.  

Do lado do Governo, aí si, há novidades. Comparada com a administração precedente , a equipa de Barack Obama é jovem, mais aberta às grandes questões globais da segurança internacional, do direito humanitário e da dignidade das pessoas. É visível a diferença. Também difere muito do Congresso. Possui uma visão mais global das questões. Quer trabalhar com as Nações Unidas. Aceita os princípios da lei internacional e tem, ao mesmo tempo,  consciência da sua responsabilidade na resolução das grandes questões que representam uma ameaça para a paz e a segurança. É verdade que não se esquecem, de modo algum, dos interesses americanos na cena mundial. São, por isso, muito pragmáticos na maneira de encarar os problemas, tentando encontrar um equilíbrio entre a maneira estreita como o Congresso vê as questões e uma intervenção mais genuína na vida internacional.

O reforço da capacidade das Nações Unidas na área de acção dos capacetes azuis é uma das preocupações da actual administração. Não é que queiram aumentar significativamente o número de soldados americanos nas operações da ONU. Isso não virá a acontecer. Não entra na cabeça dos Americanos ter tropas debaixo de um comando que não seja estado-unidense. Haverá um incremento do número de oficiais de estado-maior, mas não teremos contingentes militares. A via passa pela assistência técnica a países africanos e outros, de modo a prepará-los para participar em missões de paz aprovadas pelo Conselho de Segurança. É verdade que muitos países em desenvolvimento desejariam estar presentes nessas missões, mas não reúnem os requisitos operacionais necessários. É um constrangimento real.

Passa também por maneiras diferentes e novas de encarar as operações de manutenção de paz. Utilizando, por exemplo, forças internacionais lado a lado com tropas do país anfitrião. Como no caso do Chade, em que os capacetes azuis trabalham em coordenação com uma força especial de polícia, apoiada pelas Nações Unidas e capaz de agir num quadro que respeite os direitos humanos. Reduzem-se os custos, sem se perder a efectividade. Ganha-se, aliás, um melhor conhecimento do teatro das operações, o que é meio caminho andado para o sucesso. Ou ainda passando pela criação de um fundo financeiro renovável, que permita aos Estados mais pobres ter acesso aos recursos necessários à modernização das suas forças armadas e de segurança, antes de as despachar para uma missão da ONU.

Tornou-se claro que há um processo de reflexão sobre estas questões em Washington. Novas prioridades, incluindo África. Com os conflitos no Sudão, no Congo e no Chade a aparecerem na primeira linha das preocupações. A que se junta agora a Somália. É que em África, tal como entre a Casa Branca e o Congresso, há sempre uma oportunidade para uma nova disputa. No caso de Washington, o tempo dirá quem vai levar a sua por diante. Esperemos que seja a Casa Branca.