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O que faz perder peso são as subtilezas de raciocínio que ninguém entende

Victor Ângelo

No início de um novo ciclo governativo, parece-me útil partilhar algumas reflexões sobre a política externa de Portugal, embora o espaço disponível não permita mais do que abrir a discussão. 

Temos estado muito focados nas questões internas, o que é compreensível. Mas seria um erro esquecer a dimensão exterior. Os nossos problemas domésticos estão, nesta fase, muito condicionados por acordos além-fronteiras. Por outro lado, as relações internacionais são uma componente fundamental da soberania nacional. Como tal, devem corresponder a uma estratégia elaborada com base num consenso entre as forças políticas. Esquecemo-nos, repetidamente, destas verdades. Acabamos, assim, por tratar a diplomacia com superficialidade. Parece-nos que umas vénias, umas visitas protocolares, umas palmadas nas costas e uns jantares resolvem tudo.

Tivemos, com Luís Amado no MNE, um bom ministro. É, no entanto, necessário reconhecer que os negócios estrangeiros não podem continuar a depender, no essencial, da boa ou má performance do titular da pasta. Tem de haver uma maior ligação institucional com os outros órgãos de soberania, em particular com a Assembleia da República. O MNE tem de sentir que não vive em roda solta. Que não é uma ilha distante no mapa político nacional. Esse elo tem sido fraco. Daí terá resultado uma boa parte das hesitações e da timidez que têm caracterizado o trabalho do ministério. A Comissão Parlamentar dos Negócios Estrangeiros e das Comunidades Portuguesas tem por hábito passar demasiado tempo a debater iniciativas legislativas e várias minudências. Tem-lhe faltado genica e visão. Não se lhe conhece obra feita na produção de linhas estratégicas, na definição e categorização dos interesses de Portugal no mundo, nem mesmo, o que poderia parecer mais fácil, na elaboração de uma posição nacional em relação aos serviços que Catherine Ashton chefia.

Para além dos aspetos institucionais, a correspondência da nossa política externa com os valores que defendemos e os interesses que nos trazem paz e progresso social precisa de ser mais explícita. 

Os valores têm que ver com o respeito pelos outros povos e culturas, com a salvaguarda dos direitos humanos, da democracia e de um desenvolvimento global equilibrado. Se o relacionamento com o exterior for feito nessa base, Portugal ganhará estatura internacional. O que faz perder peso são as posições oportunistas, os ziguezagues, as ambivalências, as subtilezas de raciocínio que ninguém entende, a falta de critérios claros. Não se pode ser clarividente quando se trata das liberdades no Zimbabué, e cego, porque nos convém, num país ao lado.

A política externa deve saber conciliar os valores com os interesses nacionais. Este equilíbrio é a pedra-de-toque da boa diplomacia. No nosso caso, o objetivo supremo é o bem-estar dos portugueses. Dos que vivem em Portugal e dos que constituem as nossas comunidades no estrangeiro. A via para uma vida melhor abre-se com o esforço de cada um de nós. Mas também passa pelo tipo de imagem que projetamos no mundo, pela promoção da nossa língua, história e cultura, pelas iniciativas que criamos, pelo reforço das alianças internacionais, pela defesa das nossas empresas e, claro, por relações económicas que nos sejam benéficas.

Deste modo, mesmo em tempos de crise, quando os gastos têm de ser encarados com parcimónia, a diplomacia é um bom investimento. Terá, no entanto, que ser feita com as prioridades bem definidas e em sintonia com o resto.