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Não há razão para pesadelos

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O grito deve ser apoiado. Assistimos ao fim do último capítulo da nossa relação colonial com os países árabes, ao derrocar do controlo indireto

Durante anos, a Europa e os EUA apostaram em regimes complacentes, como o do Egito, capazes de oferecer estabilidade interna e paz com Israel. Essas foram as duas matrizes da relação com o Médio Oriente.

A estabilidade tinha que ver com os interesses económicos ocidentais na região. O petróleo e o gás, mas também com os múltiplos investimentos das grandes multinacionais, que vieram ao cheiro dos petrodólares. Tinha, igualmente, a partir do 11 de Setembro, uma conotação claramente ligada ao combate ao terrorismo. Para Washington, Londres, Berlim ou Bruxelas, um homem forte, no Cairo ou em qualquer outra capital, que mantivesse os radicais nos seus subterrâneos, era um parceiro de primeira apanha.

Israel aparece como uma mosca na sopa, naquela parte do mundo. Ameaçado, por isso, pela vizinhança, conseguiu transformar a sua segurança numa inquietação central para os europeus e os americanos. O leitor poderá achar essa posição incompreensível e anacrónica, mas a verdade é que uma boa parte da nossa política no Médio Oriente continua, misteriosamente, a ter como linha de rumo as conveniências do Estado hebreu.

Esta maneira de encarar o mundo árabe não permitiu ver as transformações que estavam a ocorrer. Ia-se ao Egito ver as pirâmides dos faraós e não se notava uma outra pirâmide, a das idades. A pirâmide etária egípcia tem exatamente a mesma forma das suas congéneres antigas. Uma base muito larga, que revela uma população marcadamente jovem. O mesmo acontece nos outros países. São jovens com acesso à informação e às tecnologias globais, mas sem acesso ao emprego nem voz política. Não se identificam com os caquéticos que controlam o poder. Era-se, por outro lado, recebido nos palácios da governação e não se via a urbanização desumana, o rebentar caótico das cidades pelas costuras, como também não se notava a omnipresença dos agentes da segurança do Estado, a repressão e a maneira indigna de tratar com os cidadãos.

Tudo isto tinha de acabar por implodir. O que se passa atualmente é um grito pela democracia e pelos direitos humanos. A liberdade e a dignidade podem não trazer mais oportunidades de emprego. Mas a opressão também não traz. Podem levar ao caos, dirão alguns. Mas, que eram os regimes opressivos se não uma forma de caos organizado, escondido e adiado? Podem fazer chegar os fundamentalistas ao poder, acrescentarão outros, enquanto pensam no que aconteceu no Irão, em 1979. Não creio. Estamos na era da internet e das redes sociais, no reino do telemóvel e das televisões por satélite, não estamos na pré-história da sociedade da informação, que era o mundo de há 30 anos. É agora mais difícil vender ideias extremistas em larga escala.

O grito deve ser apoiado. Assistimos ao fim do último capítulo da nossa relação colonial com esses países, ao derrocar do controlo indireto. É no nosso interesse que esses povos se libertem e procurem as respostas mais adequadas para os seus problemas, tendo em conta as suas realidades socioculturais. A democracia é um bom investimento. É essencial que a Europa e os EUA deixem de ter estados clientes no mundo árabe. E que sejamos vistos como parceiros prontos a colaborar, em pé de igualdade e sem ambiguidades. O fim das ambiguidades quer também dizer que o Ocidente se compromete, com firmeza, na procura de uma solução duradoira para o conflito israelo-palestiniano. Assim se constrói uma relação mais equilibrada com uma região que é vital para os nossos interesses.