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Não esquecer a Síria

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 Bashar al Assad é como uma viúva-negra, incapaz de imaginar a política para além da teia de teorias conspirativas que ele próprio teceu.  

Victor Ângelo

Face à desgraça da Síria, a comunidade internacional está dividida, confusa e impotente. Entretanto, o Presidente Bashar al-Assad continua obstinado, numa caminhada cega e fatal. Nas últimas três semanas, desde o início da missão de observação árabe, acrescentou mais de 400 mortes ao seu cadastro. A ONU diz que terão morrido, nos dez meses que a revolta popular já conta, pelo menos 5 400 pessoas. Pensar, como alguns acreditam, que Assad aceitará mudar de rumo e poderá negociar com os líderes da oposição é uma ilusão. O ditador vive num mundo desligado da realidade. É como uma viúva-negra, incapaz de imaginar a política para além da teia de teorias conspirativas que ele próprio teceu.

Por isso, em relação a Assad, há que ser realista: a sua queda é essencial para a resolução da crise.

O Conselho de Segurança, enquanto expressão da vontade internacional, está dividido. A Rússia, atrás da qual se alinha a China, tem-se oposto a qualquer tipo de decisão que possa significar uma condenação de Assad e permitir uma intervenção externa. As razões russas serão várias. Uma terá certamente que ver com o desagrado que lhe causou a operação ocidental na Líbia. É o momento da desforra. Outra estará relacionada com a intenção de Putin de adotar uma política externa mais aguçada, que permita lembrar a todos que a Rússia continua a ser uma potência mundial, que deve ser tida em conta. Há também quem refira os interesses económicos de Moscovo. A Síria é, entre outras coisas, um cliente assíduo de armamento russo. Importante, no meu entender, é a questão do relacionamento da Rússia com a NATO. O Kremlin está profundamente agastado com a Aliança Atlântica, por causa do escudo antimíssil. Com o avanço da instalação deste sistema de defesa, sem acordo com os russos, Putin joga a carta da obstrução em matérias que o Ocidente considera de peso.

Aqui, o desafio passa por saber encontrar maneiras de negociar com a Rússia.

Quanto à confusão, o problema começa no seio da Liga Árabe. A missão de observação, que agora foi prolongada por mais um mês, faz pensar num uádi, num fio de água que se perderá no deserto. É uma via que todos continuam a aconselhar, mesmo os poderes ocidentais, embora saibam que não leva a parte alguma. Uma missão deste tipo só faz sentido quando há um mínimo de vontade das partes de encontrar uma solução negociada. Tal não é o caso, no que respeita ao regime - já rejeitou o novo plano de transição, que fora proposto no início desta semana. A oposição também se está a radicalizar. A Liga Árabe deveria, isso sim, transferir o caso para o Conselho de Segurança e pôr a Rússia e os outros membros perante as suas responsabilidades. Essa seria a evolução normal da crise. Não o fez, sobretudo por oposição dos militares egípcios, que têm relações históricas com os seus camaradas da Síria. E o Egito, para não aparecer sozinho, pediu à Tunísia e à Argélia que o acompanhassem. Estes serão, de momento, os únicos Estados da região que ainda ouvem os militares do Cairo.

A UE, por seu turno, vai impor novas sanções ao regime de Assad. É um gesto que dá nas vistas, mas vazio de impacto.

Fica-se, assim, com um sentimento de impossibilidade. Como se não houvesse saída para a crise síria. Não pode ser. À impotência das instituições internacionais, será preciso responder com a mobilização da opinião pública. Os media, as redes sociais, as organizações não governamentais, os meios académicos, não podem continuar a deixar morrer o povo sírio.