Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Na fronteira da crise

Horizontes

  • 333

O poder político ou cria condições para que as forças de defesa e segurança possam fazer o que tem que ser feito ou pede a outros que o façam

Victor Ângelo

Há dias, em Riga, à mesa do jantar, uma alta patente da Letónia disse-me que as fronteiras terrestres dos Estados bálticos com a Rússia e a Bielorrússia são das mais seguras da União Europeia. E das que menos custam a defender: quer Moscovo quer Minsk têm milhares de guardas a tratar do assunto. Vinha isto a propósito da imigração ilegal e dos novos tipos de ameaças que a Europa enfrenta, os perigos com origem em grupos terroristas ou criminosos internacionais. Uma parte importante da segurança nacional passa, agora, pelo combate contra essas redes, indefinidas mas poderosas, de malfeitores. É uma luta assimétrica e complexa. Quando não se tem um vizinho que faça o trabalho por nós, mesmo por ricochete, como é o caso báltico, a defesa nacional e a segurança interna têm custos elevados, que não podem ser ignorados. Exigem meios sofisticados, gente preparada, formação contínua, rigor de comando e profissionalismo absoluto.

No regresso ao hotel, veio-me à memória um outro jantar recente. Um general britânico dizia-me, então, que quem tem como missão pensar na proteção das fronteiras externas da União Europeia vê com preocupação a crescente falta de meios de patrulhamento e controlo da plataforma marítima portuguesa, no alto mar e na costa. Dizia, até, com certa ironia, que defendêramos, em 2010, o alargamento da nossa plataforma para lá das 200 milhas, quando, na realidade, não temos capacidade para proteger a faixa bem mais reduzida das 12 milhas. Estava ao corrente da decisão do Governo de cancelar a construção, nos estaleiros de Viana do Castelo, de seis navios patrulha e de cinco lanchas de fiscalização costeira. E de outras coisas embaraçosas, como os barcos da Marinha, parados aqui e acolá, por falta de peças ou de combustível, ou a descoordenação entre a Defesa e a GNR. Para o general, o Atlântico português é um elo vulnerável na cadeia de proteção da Europa, uma via aberta ao tráfico de drogas, à imigração ilegal e mesmo, à importação de armas e incursões terroristas. Acrescentou que, mais tarde ou mais cedo, a diplomacia europeia terá que fazer pressão para que Portugal tome medidas. 

Tentei argumentar, mencionei alguns sucessos, sem contar com o facto de o nosso mar conter um potencial económico enorme, em recursos minerais - gás natural, metano, cobalto, níquel e outros - e no domínio da aquicultura. Sorriu, com ironia, como quem diz, se vocês não controlam a área como podem ter sonhos relacionados com a sua utilização? E aproveitou para me lembrar, como se fosse uma nota de rodapé, que outro motivo de inquietação tem que ver com as nossas instituições de inteligência, depois do escândalo à volta dos ex-dirigentes do Serviço de Informações Estratégicas de Defesa (SIED). A possibilidade de violação do segredo de Estado e a aparente fragilidade do sistema levantam reticências à partilha de dados e análises com o nosso País. Na realidade, a dúvida é esta: será que aquilo que é transmitido a Portugal fica, de facto, no segredo dos deuses, ou é "partilhado" através das maçonarias e outras ligações inapropriadas?

No fundo, a mensagem era simples. Portugal pode estar em crise profunda. Mas, como parte de um sistema de segurança comum e por razões de geografia, é um elo vital na defesa do conjunto. Deste modo, o poder político ou cria condições para que as forças de defesa e segurança possam fazer o que tem que ser feito ou pede a outros que o façam. Aos vizinhos, aos demais membros do projeto comum. Não pode é fechar os olhos e fingir que não há problema.