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Milho, bruxedos e democracia

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A África Central continua a ser uma região à parte em termos de governação democrática

A cimeira deste ano da União Africana já está em marcha. Os líderes encontrar-se-ão em Sirte, na Líbia, nos três primeiros dias de Julho. O tema central é o investimento na agricultura, como factor de crescimento económico e de segurança alimentar. Na sala, circularão também os  fantasmas de um ou outro ditador, que continuam a atormentar a expansão da democracia em África. 

É curioso ver a agricultura de volta. O fórum político máximo de África regressa à posição de partida. Á questão central. Ao desenvolvimento. Com base nas zonas rurais. Existe, de facto, um potencial ainda por realizar, em termos agrícolas. A agricultura comercial é uma das linhas de futuro do continente africano. A terra está disponível. Os  recursos aquíferos são imensos, quer à superfície quer em lençóis subterrâneos. O clima é previsível, regular. A mão-de-obra, abundante. Faltam, em muitos casos,  as condições políticas, que estimulem o investimento e garantam a estabilidade dos projectos. Por exemplo, é preciso dizer não a dirigentes como Mugabe. Declarar bem claro que as práticas desse senhor pertencem ao passado, que não são aceitáveis na África do futuro. 

O Presidente Bongo, por razões que todos conhecemos, não estará fisicamente presente em Sirte. Lidei com ele, pela primeira vez, em 1978. As Nações Unidas tinham concluído o recenseamento geral da população do Gabão. O Presidente não estava disposto a aceitar os resultados. Nós tínhamos em cima da mesa um pouco mais de 700 000 habitantes. O país é três vezes maior do que Portugal, mas não é mais do que uma mancha verde de floresta equatorial cerrada, quase sem habitantes. Bongo, senhor supremo de um país que, nessa altura, abarrotava em petrodólares por todas as costuras, dizia-nos que não podia levar a sério um número inferior a um milhão. E a coisa ficou por aí, sem solução. Ainda hoje, a população é apenas calculada com base em estimativas... 

A segunda esposa do Presidente gabonês faleceu em Março. Três meses antes do marido. Tinha 45 anos. Filha do Presidente Sassou-Nguesso do Congo, dizem as bocas da África Central que a causa de morte foi mau-olhado. Fetichismo. O seu pai queria saber qual era o fetiche que mantinha Bongo há 42 anos no poder. Queria mesmo que a filha se apoderasse desse manipanso, para seu uso pessoal, nas lutas pelo poder, em Brazzaville. Descobertas as intenções da senhora, as coisas acabaram mal. Mas, dizem as mesmas línguas, agora foi a vez de Bongo, que as bruxarias fazem parte do imaginário político da África Central. Os políticos da região ainda não chegaram à fase dos consultores de imagem, como aqui pela nossa terra. 

O que está em jogo é a possibilidade de haver uma sucessão limpa e constitucional no Gabão. A filha e o filho mais velhos do presidente agora defunto estão em conflito aberto. Ambos querem controlar o poder. O país continua a ser muito rico em recursos naturais. A tentação é grande. Basta ver como o Pai Bongo se tornou um dos homens mais ricos do mundo. 

Na cimeira da União Africana, a questão da prevenção e da resposta a golpes de Estado também está na ordem do dia. Tem o nome diplomático de "prevenção de mudanças inconstitucionais de governo". A África Central continua a ser uma região à parte em termos de governação democrática. Está muito mais atrasada do que o resto do Continente. É uma zona onde imperam os velhos crocodilos políticos. O Gabão tem agora a oportunidade de se tornar um bom exemplo.