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É muito provável que os movimentos contra a globalização ganhem ímpeto em 2012. A China seria, neste caso, o principal alvo dos antiglobalistas

Victor Ângelo

Entramos em 2012 com ansiedade. Este poderia ser o resumo das mensagens de Ano Novo de vários líderes. Habituados a encarar as passagens de ano com otimismo, sentimo-nos, desta vez - nós, os cidadãos - profundamente inquietos. A estagnação económica, as finanças públicas em bancarrota, o desemprego e o empobrecimento das famílias definem as angústias atuais. Na UE, as inquietações incluem a questão do futuro do euro: gente com nome tem dado a moeda única como em fim de vida. O exagero dá direito a manchetes e aumenta a confusão. Abre, além disso, as portas à tendência para uma Europa mais dividida, retalhada pelos chauvinismos, com os interesses nacionais a tomarem a primazia, em prejuízo dos comunitários. 

Outras ameaças estão igualmente no centro das preocupações globais. Como evoluirá a situação na Península da Coreia, uma das zonas mais sensíveis e militarizadas do mundo? Que poderá acontecer às relações entre a Rússia de Putin e o Ocidente, quando se prevê um processo eleitoral com manchas e um agravamento da retórica ultranacionalista, antiocidental, do lado de Moscovo? E as Primaveras Árabes, da Líbia à Síria, passando, claro, pelo Egito e o Iémen? Que fazer no que respeita a Bashar al-Assad, o oftalmologista que não consegue ver que o futuro passa pela transformação democrática e não pela repressão assassina dos cidadãos? A Síria deverá ser uma prioridade, em 2012. Como o serão o Iraque, o Irão, o Afeganistão e o Paquistão, ou seja, um corredor de instabilidade, ininterrupto, do Mediterrâneo ao Índico. Sem esquecer Israel e a Palestina...

Em tempos de crise, os indivíduos procuram refúgio nas suas famílias e os Estados no reforço das suas fronteiras. Numa altura em que a palavra de ordem deveria ser cooperação, prima antes a mentalidade de sitiado. Onde deveria haver um espaço comum, voltam a erguer-se as fortalezas nacionais. Assim, é muito provável que os movimentos contra a globalização ganhem ímpeto em 2012. A China seria, neste caso, o principal alvo dos antiglobalistas. É verdade que certas vantagens comparativas da China são inaceitáveis: uma mão de obra explorada e sem liberdade sindical, uma economia pouco respeitadora do ambiente, um capitalismo de Estado que desequilibra a concorrência, uma moeda subavaliada.

Mas trata-se de um ator incontornável, no mercado global. Hostilizar a China não serve os interesses do Ocidente nem a estabilidade internacional. A superação da crise de muitos países passa, isso sim, pelo aumento das parcerias com a China. Que deverão ser acompanhadas por um diálogo político mais corajoso, que ponha Pequim perante as suas responsabilidades, incluindo o respeito pelas convenções internacionais, dos direitos humanos à proteção do ambiente. 

As eleições presidenciais americanas serão, também, um dos acontecimentos marcantes de 2012. Por muito que custe admitir, os EUA são hoje o ator mais importante na cena internacional. A campanha eleitoral deverá ser muito dura. Estão em jogo duas opções distintas, para além de muito racismo. Temos, de um lado, um posicionamento que continua a ser relativamente aberto ao mundo e progressista, apesar das contradições existentes. Do outro, do lado republicano, a opção é a de uma América retrógrada, arrogante, introvertida e obstrutora, em matéria de política externa. Estas diferenças são de raiz. Num mundo em crise, é fundamental poder continuar a contar-se com uma estratégia americana virada para a cooperação internacional. Permitirá acrescentar uns salpicos de esperança à ansiedade geral.