Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Europa 2013: uma visão

Horizontes

  • 333

Esquecemo-nos dos valores que partilhamos. Caímos no logro de acreditar que o dilema é entre austeridade e solidariedade

Victor Ângelo

Iniciamos o Ano Novo, aqui e noutros cantos da UE, preocupados e indiferentes. As preocupações resultam dos problemas que temos pela frente, como cidadãos e enquanto países em crise. Para muitos, as dificuldades parecem não ter fim. Cada um, indivíduos e nações, sente-se abandonado à sua sorte. É aqui que surge a indiferença, que é outra maneira de falar do egoísmo. Estamos mais alheios aos que estão piores do que nós. Isto é sobretudo verdade entre as nações europeias. As do Norte entram em 2013 sem qualquer tipo de predisposição para atender às gentes do Sul. Mesmo entre os nórdicos, os preconceitos abundam. Na Bélgica, na parte mais rica, a Flandres, há quem diga que não se deve continuar a transferir meios orçamentais para a Valónia, que sofre de declínio económico. Na Holanda, a maioria dos residentes nas províncias setentrionais considera que os seus concidadãos do Limburgo, a região meridional que tem Maastricht como capital, são gente sem apego ao trabalho. Acham, por isso, que o Estado deveria ser menos generoso na redistribuição da riqueza nacional. Na Escócia, os que lutam pela separação do Reino Unido pensam, acima de tudo, em poder guardar os proveitos da exploração do petróleo. Mais abaixo, a Catalunha é outro exemplo de como as regiões mais ricas estão contaminadas por uma compreensão egoísta e estreita do seu posicionamento, que as impede de perceber que só vive bem quem vive numa vizinhança próspera e tranquila.

Enquanto europeus, perdemos a visão de um destino comum. As conveniências de cada Estado sobrepõem-se à vontade de construir uma comunidade de interesses. A visão dos fundadores, inspirada pela paz, a estabilidade, a segurança e prosperidade, faz parte, para muitos, dos fantasmas do século passado. Deixou de ter eco nas gerações de agora, que consideram esses objetivos como adquiridos. Com exceção da prosperidade, que, nalguns países, parece ter um futuro questionável. Talvez por isso, um discurso diferente, que tome como ponto de partida os desafios internacionais e o seu impacto sobre o nível de vida de todos nós, permita desenhar uma nova visão para Europa. Assim, a reflexão sobre o que deve ser o nosso destino comum é um tema urgente. Deveria resultar de iniciativas de cidadania, como um projeto pan-europeu.  

Também nos esquecemos dos valores que partilhamos. Caímos no logro de acreditar que o cerne da questão é o dilema que contrapõe a austeridade à solidariedade. Esta é uma tese errada, que joga numa relação de forças que será sempre prejudicial aos que estão em crise. A revitalização comunitária terá que resultar de um encadeamento de debates públicos sobre os valores que a Europa deve, coletivamente, defender, face às grandes questões globais e aos poderes emergentes.

Dizem-nos que saímos de 2012 com uma Europa mais reforçada. Mencionam, para o demonstrar, as decisões relativas à ajuda à Grécia, que evitaram a rutura, um euro mais estável, a adoção da regra de ouro quanto ao limite constitucional dos défices orçamentais, que acaba de entrar em vigor, bem como a decisão de avançar com a supervisão dos maiores bancos. Tudo isto é verdade. Esconde, no entanto, uma Europa mais dividida, em que uns mandam e outros alinham o passo, incluindo a França do fraco Hollande, bem como os perigos relacionados com a deriva antieuropeia do Governo conservador britânico. E deixa-nos muito céticos: enquanto não se registarem melhorias significativas a nível do emprego, não haverá confiança, nem na recuperação, nem nos líderes, nem na Europa.