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Escutas e fingimentos

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Tem que haver mais controlo legal, transparência e cooperação entre os serviços europeus. (...) Declarações de donzela virtuosa e ofendida, não levam a parte alguma

Victor Ângelo

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Em 1979, Lord Carrington, Foreign Secretary no primeiro Governo de Margaret Thatcher, foi o anfitrião e o facilitador do acordo que pôs termo ao regime de Ian Smith, na Rodésia. As negociações decorreram em Lancaster House, um palácio londrino que pertence ao Ministério britânico dos Negócios Estrangeiros. Após o acordo, quis reconhecer o pessoal que o apoiara durante as discussões e que lhe havia permitido fazer um brilharete. Dirigiu-se, em particular, aos agentes dos serviços secretos, o famoso MI6, que, ao longo das negociações, haviam escutado e infiltrado as fações em litígio. Apesar do conhecimento prévio que tinha da posição de uns e de outros, Carrington fingiu-se, em cada momento, surpreendido pelas propostas que iam sendo aventadas. Por isso, ao agradecer aos seus espiões, disse-lhes que não só lhe haviam facilitado a tarefa, ao dar-lhe uma enorme vantagem negocial, como lhe tinham igualmente proporcionado a oportunidade de descobrir que era um grande ator.

Não sei se Gordon Brown, em 2009, então primeiro-ministro, se lembrou de agradecer aos seus, na altura da cimeira de Londres do G20. Também não sei se se achou um grande ator. Mas a verdade é que, na linha de Lord Carrington e do que é prática habitual, por parte de alguns governos, Brown manteve sob escuta os líderes que participaram na cimeira. As razões da espionagem não tiveram que ver com questões de segurança nacional. Tal como em Lancaster House, a preocupação era a de obter uma primazia significativa sobre os restantes membros do G20, na preparação das discussões. 

Vêm estes exemplos a propósito da polémica que as revelações de Edward Snowden criaram em certos setores da opinião política europeia. Servem para ilustrar que não são apenas os Estados Unidos que têm por hábito espiar a torto e a direito. Na Europa, os britânicos são quem mais investe em atividades encobertas. Não sendo os únicos - a França tenta fazer parecido, sem ter a mesma pedalada -, são dos que consideram todos, gregos e troianos, aliados e adversários, como alvos legítimos. Deste modo, se a Europa estiver verdadeiramente preocupada com a proteção dos direitos dos cidadãos e das informações estratégicas, deve, antes de tudo, começar por discutir entre si e arrumar a casa, na área da segurança. Tem que haver mais controlo legal, transparência e cooperação entre os serviços europeus. Simplismos, ou declarações de donzela virtuosa e ofendida, não levam a parte alguma. Isto não impede a UE de discutir a sério com os americanos, como tem estado a acontecer esta semana, um entendimento sobre a matéria, mas sem crispações nem ilusões. Está nos genes da administração americana, desde sempre, mas sobretudo depois do 11 de Setembro, escrutinar tudo e todos e agir em consequência... 

A verdade é que todas as grandes potências o fazem, embora com meios incomparavelmente menores que os utilizados agora por Washington. Seria, por isso, um erro focalizar todas as atenções no outro lado do Atlântico Norte e esquecer os riscos vindos de outras partes do globo. Nomeadamente, os ataques sistemáticos provenientes do Extremo Oriente. É hoje claro que faz parte da política da China dedicar vastos recursos a todo o tipo de ações de obtenção de informações, especialmente nas áreas militares, industriais e científicas. O que é, aliás, realista, pois estamos num mundo global e altamente competitivo. O que não pode ser considerado normal é a ingenuidade e a surpresa com que Bruxelas e outros têm estado a tratar destas coisas.