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O centro-esquerda europeu não tem conseguido canalizar as ansiedades nem inspirar esperança aos cidadãos

Victor Ângelo

Pare, escute e olhe! Lembram-se? Um comboio pode esconder outro... Agora, é a crise europeia que parece ocultar uma outra: a crise da representação política. O cidadão, um pouco por toda a parte, deixou de se sentir representado pelos partidos tradicionais que, durante décadas, se têm revezado no exercício do poder. Esses partidos são agora vistos como meras máquinas de propulsão de oportunistas. Máquinas inacessíveis, distantes e opacas, em contracorrente com as práticas de hoje, que são abertas, próximas e transparentes, graças à utilização generalizada das redes sociais. Para mais, ao revelarem-se incapazes de imaginar soluções que respondam às inquietações atuais dos eleitores, perdem credibilidade e conduzem ao aviltamento da imagem das instituições. São os parlamentos e os executivos - governos e a Comissão, em Bruxelas - que saem pior deste processo de desvalorização política.

É na área do centro-esquerda que a crise dos partidos é mais evidente. O descrédito do neoliberalismo, os altos níveis de desemprego, a evolução dos valores e da ética, as aspirações de justiça social, tudo isto deveria traduzir-se num apoio acrescido à social-democracia e ao socialismo na Europa. Não é isso que está a acontecer. Apesar das condições lhe serem claramente favoráveis, o centro-esquerda europeu não tem conseguido canalizar as ansiedades nem inspirar esperança aos cidadãos. Tem-se mostrado igualmente incapaz de dar um novo fôlego à construção europeia. O exemplo mais evidente deste fracasso vive em Paris.

François Hollande foi eleito há exatamente um ano. Quem o elegeu esperava uma mudança profunda na orientação que vinha a ser seguida pelo seu predecessor, de liberalismo económico e de alinhamento com as posições alemãs. Um ano depois, a crise económica francesa agravou-se, o desemprego aumentou e a subordinação a Berlim acentuou-se. A França perdeu peso na cena europeia. Hollande dá uma imagem de falta de rumo. Parece um dirigente para todas as estações, ou seja, um catavento político, mais tático do que estratégico. O Partido Socialista francês está mais fracionado que nunca. Tudo isto por não haver uma resposta ideológica coerente e moderna aos desafios que o país e a Europa enfrentam.

O caso francês prejudica os partidos da mesma família política no resto da vizinhança. Perante o fracasso de Hollande, quem consegue convencer os eleitores, noutros países, que os socialistas são uma alternativa credível? Na Alemanha, nas vésperas das legislativas de setembro, o Partido Social-Democrata, que foi uma organização determinante no avanço da ambição europeia e na modernização da Alemanha, não consegue aparecer como uma alternativa credível às opções de Angela Merkel. O seu candidato a chanceler, Peer Steinbrück, além de ser conhecido pela frequência das suas gafes, é, sobretudo, um porta-voz dos ecos do passado, de soluções que funcionaram há décadas, quando as circunstâncias eram bem diferentes. Foi ele quem lançou, recentemente, a ideia de um novo Plano Marshall para a Europa. Como se a Europa e o mundo estivessem com a mesma dinâmica e a mesma relação de forças que caracterizavam a cena internacional há 60 anos.

Na verdade, a classe política precisa de parar, escutar e olhar para poder compreender quais são as grandes inquietações dos seus concidadãos e propor, em seguida, uma resposta adequada. Ou seja, é preciso formular um novo corpo de ideias, uma ideologia ancorada nos anseios e receios das populações e virada de vez para o futuro. Trata-se de um desafio de proximidade e de imaginação!