Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Em contracorrente

Horizontes

Há quem pense que a Alemanha está em vias de perder mais duas guerras: a da opinião pública e a do projeto europeu. É um erro de apreciação

Victor Ângelo

A crise profunda do projeto europeu tem criado, em muitas mentes, vastas confusões e, noutras, febres de idealismo oco, palavras, só palavras. Tem sido também uma oportunidade para se tentar passar as culpas para a chanceler alemã, as agências de notação e os mercados, como se os políticos dos países em dificuldades não tivessem um quinhão enorme das responsabilidades.

A Zona Euro não pode ser comparada aos EUA, nem o Banco Central Europeu (BCE) deve ser visto à luz do banco central americano, a Reserva Federal. Esperar que o BCE faça o que faz a Reserva Federal e, por exemplo, emita obrigações em nome de toda a Zona é uma falácia, nas circunstâncias atuais. Poderá vir a acontecer, a prazo, quando o grau de desenvolvimento económico de cada Estado se tiver aproximado de um patamar partilhado por quase todos. No imediato, exigiria uma transferência significativa da soberania nacional para órgãos comunitários, quer a nível executivo, para a Comissão Europeia, quer a nível legislativo, para o Parlamento Europeu. Alguém acredita que os governos e os parlamentos nacionais estejam prontos para ceder esse tipo de poder? Mesmo que a CE fosse composta de personalidades mais ousadas? Sem esquecer, claro, que o PE, onde tem assento uma maioria de relíquias políticas, é composto por muitos deputados de países exteriores ao euro. Exigiria, igualmente, uma reformulação do mandato do BCE para além da estabilização dos preços, que só seria possível quando a questão da redução das soberanias nacionais tivesse sido adjudicada. A margem de manobra do BCE, em termos de emissão de euros e de compra de dívida soberana, continuará a ser, entretanto, reduzida. Deve, todavia, ser utilizada ao máximo.

Quer isto dizer que o euro tem os dias contados? Tem havido muito alarido em torno do tema. Anuncia-se a ruína iminente do euro. Um exagero, sem dúvida. A moeda vai certamente perder valor face a outras divisas, o que considero benéfico, mas continuará a existir. Também me parece excessivo dizer que certos países vão ter de sair da Zona Euro. Se o fizessem, ficariam irremediavelmente mais pobres. O ajustamento das suas economias, no quadro do euro, é menos penoso do que fora dele. Mas precisam, irrefutavelmente, de tratar do seu crescimento económico, produzindo mais e melhor, visando, acima de tudo, numa primeira fase, o mercado interno.

Também tem havido muito alvoroço à volta dos novos governos da Grécia e da Itália. Politicões veteranos e os seus seguidores amestrados estão a dizer-nos que a democracia está em perigo. Monti e Papademos seriam os cavalos de Tróia da tecnocracia, como se a sua investidura tivesse sido feita à revelia das normas constitucionais e dos respetivos parlamentos. A verdade é outra: a complexidade da crise requer uma liderança bem preparada e credível. Muitos políticos tradicionais, peritos em manobras nos aparelhos partidários, estão a sofrer sérios défices de credibilidade.

Acrescentaria, ainda, que há quem pense estar a Alemanha em vias de perder mais duas guerras, desta vez em simultâneo: a da opinião pública e a do projeto europeu. É um erro de apreciação. Ao contrário do que muitos imaginam, a chanceler acredita que a UE é um objetivo fundamental, indispensável para a paz na Europa e para a prosperidade do seu país. Está igualmente convencida de que os descalabros fiscais são uma ameaça para a estabilidade europeia. Qualquer concessão que venha a fazer, na cimeira de 9 de dezembro ou no futuro imediato, será inspirada por estas duas linhas diretrizes. No dia em que deixar de acreditar na importância dessas premissas, a União terá os dias contados.