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Gente importante na Europa prefere uma política externa oportunista. As revoltas de hoje mostram que ela não tem credibilidade nem futuro

Os acontecimentos no Norte de África e no Médio Oriente tornam necessário rever a maneira como a Europa faz política externa. É verdade que uma reflexão inicial já está a decorrer, em Bruxelas e Estrasburgo, bem como em duas ou três outras capitais. Mas parece moldada pelos velhos clichés. Os políticos europeus continuam a olhar para o mundo além-mediterrânico com sobranceria. Não conseguem ultrapassar a propensão para dar lições aos outros povos. E, no livro de receitas que utilizam, aparecem sempre os mesmos pratos: a promessa de mais cooperação, de apoios à sociedade civil, de ajuda no combate à corrupção e de fundos para eleições. A que se acrescenta, como não poderia deixar de ser, a referência a uns possíveis investimentos privados. 

Ora, tudo isto já foi aplicado, sem sucesso. A Tunísia é um exemplo, entre outros. A Europa gastou, nos últimos 15 anos, cerca de 1 300 milhões de euros na cooperação com esse país, incluindo, ironicamente, na boa governação, na gestão económica e no emprego. O Banco Europeu de Investimento, por seu turno, atribuiu cerca de 3 600 milhões de euros em empréstimos. Quais foram os resultados? Alimentou-se a corrupção. Exacerbou-se a dicotomia entre o setor moderno e o informal, as desigualdades sociais, os desequilíbrios entre as regiões do país, as frustrações dos marginalizados. Satisfez-se o ego dos burocratas da máquina europeia e produziu-se um número sem fim de relatórios de avaliação, muito positivos e cheios de elogios à vontade de reforma de Ben Ali.  

A Europa tem que estar mais atenta às realidades políticas e demográficas da região. Quando Hosni Mubarak chegou ao poder, havia cerca de 150 milhões de árabes. No momento da sua queda, contam-se 350 milhões. E o rápido crescimento populacional vai continuar, por mais duas décadas, pelo menos. A grande maioria é jovem. Formados, alguns, informados, todos. Têm um nível de determinação e de combatividade que não pode ser ignorado. A grande questão, depois da democracia, é a de saber como responder às suas aspirações de vida. É uma problemática complexa. A responsabilidade primeira cabe aos seus dirigentes legítimos. Deve, porém, ficar claro que a Europa está disposta a dar uma achega. Em diplomacia, a solidariedade é um valor seguro. Mas a agenda da cooperação deve ser definida em pé de igualdade, não imposta pela Europa, como tem acontecido até agora. 

Os acontecimentos mostram que os diplomatas dos Estados membros precisam de estar mais sintonizados com as realidades locais, ser capazes de entender as dinâmicas sociais e de informar as suas capitais. As embaixadas europeias não podem ser apanhadas a dormir na forma. Ainda no campo de uma melhor análise de riscos, é preciso rever o desempenho dos serviços de inteligência exterior. Os principais serviços de segurança externa, do MI6 inglês ao BND alemão, do DGSE francês ao CNI espanhol, estão sobrecarregados com os dossiês do terrorismo e sem meios para fazer análise geopolítica. Ao nível de Bruxelas, por outro lado, as informações estratégicas ainda não são tratadas com a competência que a nova dinâmica internacional exige. 

Acima de tudo, é fundamental que a política externa europeia assente em valores e princípios universais. A democracia, os direitos do homem, a justiça social e a segurança humana devem ser os critérios absolutos, na tomada de decisões. Gente importante pensa que esta maneira de ver é ingénua e inadequada. Preferem, como tem sido o caso, uma política externa oportunista, mais tática do que estratégica, que dê a primazia aos interesses e à estabilidade. As revoltas de hoje mostram que essa maneira de fazer política não tem credibilidade nem futuro.