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Dos Alpes para baixo

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As dores de cabeça de quem está em Davos relacionam-se também com o peso crescente de fontes não-tradicionais de poder - as ONG, as redes sociais e certos media como a Al Jazeera e o Wikileaks

O encontro anual de Davos, que agora está a decorrer, não tem a Tunísia inscrita na ordem do dia. Nem qualquer outro país da África do Norte ou do espaço árabe. A agenda mostra que as empresas globais e os principais paladinos do liberalismo económico internacional têm outras preocupações.

Este ano, o ponto de partida do Fórum Económico Mundial, a designação oficial da reunião de Davos, é o reconhecimento da incerteza e da mudança, como sendo as duas principais vertentes, na atualidade das relações internacionais. Dizem os grandes deste mundo que existe "uma nova realidade". Complexa, instável, em constante mutação, difícil de prever. Acrescentam que, no tempo presente, há uma tendência para pôr tudo em causa. Incluindo o papel dos Estados. A instabilidade traz novas ameaças e riscos, quer a nível político quer nos domínios económicos, empresariais e sociais. Há, por outro lado, uma multiplicação dos centros de poder. A geopolítica está em transformação, as áreas de influência dos Estados mais poderosos estão a ser contestadas. As dores de cabeça de quem está em Davos relacionam-se, igualmente, com o peso crescente de fontes não-tradicionais de poder, como certas Organizações Não-governamentais, as redes sociais cibernéticas e os media de alcance global, de que a Al Jazeera TV é o exemplo mais recente. Sem esquecer, claro, a erupção de contrapoderes, como é o caso de Wikileaks.

Tudo isto é verdade. São os receios de quem vê as coisas de cima, com tempo para as grandes questões estratégicas. Parecem, para quem não anda no cume dos Alpes, questões abstratas, meras justificações para que os poderosos tenham a oportunidade, uma vez mais, de passar uns dias a fortalecer as suas redes de contactos. Não será bem assim. Mas, quem anda nas praças de Tunes, ou nas ruelas de Argel, acaba por ter uma outra visão da vida, mais imediata, focada na sobrevivência.

Muito se tem escrito sobre a situação na Tunísia, o desemprego dos jovens, a pobreza, a corrupção do grupo dirigente, a repressão política, os riscos do fundamentalismo religioso. Factos importantes, todos esses, sem dúvida. Porém, no fundo, o que existe na Tunísia e noutros países vizinhos, é a combinação explosiva de três ingredientes determinantes: um crescimento demográfico acelerado, com multidões de jovens sem chances de encontrar emprego; uma urbanização desumana, sem um mínimo de condições; e a negação da participação política. Ou seja, à precariedade, à falta de perspetivas, à insegurança absoluta perante o futuro, junta-se a repressão da iniciativa individual, reduzindo o espaço de manobra de cada um e impedindo a responsabilização política dos cidadãos. Deste modo, a frustração social é canalizada contra o pequeno círculo de dirigentes. A revolta popular é profunda e genuína. No caso concreto da Tunísia, o poder está na rua, ainda não surgiram os líderes que uma situação destas deveria fazer emergir. Por que será? Entretanto, a rua não vai aceitar qualquer pacto com o que resta do regime anterior.

Haverá quem fale nestas coisas, nos intervalos dos grandes debates, nos salões de Davos. E quem diga que a Argélia, o Egito, o Iémen, países com situações semelhantes e capazes de seguir um caminho paralelo ao da Tunísia, são terras longínquas, que pouco contam no comércio mundial. Seria um erro pensar assim. Sobretudo no quadro de um fórum que afirma que a interdependência entre nações é uma das características do tempo presente. E que o contágio é, na era da internet, como fogo em palha seca.