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Abdul, 14 anos, foi raptado em Maio. Agora, já deve ser um guerrilheiro

Maryam, a jovem refugiada sudanesa, fugida do conflito no Darfur, que foi violada há quinze dias por dois homens armados e vestidos à militar, quando procurava lenha nas terras secas do Leste do Chade, não sabe que passei a manhã de terça-feira, 28, reunido, à porta fechada, com o Conselho de Segurança da ONU. A falar de casos como o seu. Sim, porque cada vez há menos madeira à volta dos campos de refugiados. Quatro anos após a chegada destas populações, o pouco que havia nos arredores de cada campo já foi consumido. Agora, é preciso ir muito mais longe, às cavalitas num burro e à sorte do que possa acontecer no trajecto. E muito acontece naqueles barrancos sem fim. Sobretudo, actos violentos contra as mulheres. São as maiores vítimas, em situações de crise civil.

Mas não só. Era preciso falar, também, de Abdul e de outros rapazes da sua geração. Abdul foi raptado em Maio, num campo a norte da localidade chadiana de Bahai, a meia légua da fronteira com o Sudão. Com 14 anos, deve estar agora incorporado no grupo rebelde que opera na zona, depois de ter passado umas semanas numa base, a aprender os rudimentos tácticos da guerrilha do deserto e, acima de tudo, a obedecer cegamente aos chefes. O recrutamento forçado dos adolescentes continua a ser um problema por resolver. É um dos meus desafios.

E é de voltar a lembrar o caso de Pascal Marlinge, um exemplo entre muitos outros. Director de uma das agências internacionais mais activas na região, foi mandado parar, quando se deslocava, num 4X4, de Farchana para Abéché. Fuzilado ali mesmo, logo que pôs o primeiro pé no chão. Ninguém foi preso, não há responsáveis, a justiça não mexe uma palha. Os ataques contra os trabalhadores humanitários são uma das dores de cabeça que nos amarguram o quotidiano. Os intelectuais chamam a isso "redução do espaço humanitário". Faz parte das minhas obrigações pôr cobro a esses crimes.

Foi o que disse na sessão de terça-feira. Era o momento de apresentar o meu relatório trimestral sobre a situação política e militar no Chade e na República Centro-Africana. Também de discutir o estado das relações entre o Chade e o Sudão. Conseguir a boa vizinhança, que hoje não existe, é fundamental para a paz, entre estes dois Estados e naquela parte de África.

Este tipo de reuniões deve ser levado muito a sério. Não apenas porque as decisões do Conselho definem a orientação futura da intervenção da ONU na região em causa. Nem tão-somente por ser deste tipo de consultas que saem as resoluções do Conselho, que estão na base do direito internacional e dão legitimidade às acções que requerem o uso da força. Usar a força sem a aprovação do Conselho de Segurança, como aconteceu no Iraque, é arrogância imperial, baseada numa ideia de superioridade moral e civilizacional que é impossível de justificar no mundo de hoje. Levam--se a sério, porque se trata das vidas de meio milhão de refugiados e deslocados, a que se juntam centenas de milhares de habitantes locais, que, nas aldeias da fronteira com o Darfur, vivem um dia-a-dia de insegurança e de violação de direitos humanos elementares. 

No entanto, aquela reunião só por si não é suficiente. O leitor imaginará que, antes da consulta formal, tenha havido trocas de opiniões bilaterais, entre a ONU e os membros mais influentes do  Conselho. Aqui, há toda a vantagem em manter um diálogo permanente. Sem ter medo de pontos de vista diferentes, sem formalismos bacocos, com humildade. Só assim se pode fazer boa política.