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Os socialistas, com o Presidente Obama na Casa Branca, até a bandeira do antiamericanismo perderam

A crise económica acaba de fazer mais uma vítima: a família socialista europeia. As eleições de 7 de Junho mostram uma quebra importante no apoio popular aos partidos socialistas. De Portugal à Polónia, da França à Inglaterra, da Alemanha à Grécia, sem esquecer os outros países da União, os partidos do centro-esquerda e da esquerda moderada foram os grandes vencidos, na corrida para o Parlamento Europeu. Perderam votos para ambos os lados. Ficaram entalados entre o centro-direita e o esquerdismo.

É uma constatação preocupante. Sem uma esquerda forte, deixa de haver equilíbrio de poder e espaço para a alternância governativa. Fica aberto o terreno para as ilusões e os radicalismos.

Pensando bem, os resultados não deveriam constituir uma surpresa. A Europa socialista havia dado, desde o deflagrar da crise internacional, uma imagem de falta de iniciativa e de ideias claras. Não apresentou uma posição alternativa, uma proposta de contornos diferentes, um plano de acção. Não houve uma leitura socialista da crise. A agenda passou a ser definida por líderes de direita, como o Presidente Sarkozy. Os conservadores começaram a falar da regulação dos mercados, dos limites da globalização, das dimensões sociais, duma regulamentação mais apertada dos sistemas bancários, do controlo da remuneração dos gestores. Ou seja, de toda uma série de bandeiras que faziam parte do arsenal ideológico da Esquerda.

Face às inquietações dos trabalhadores, ao esfumar dos empregos e à deslocalização das empresas, às angústias dos jovens, aos receios dos reformados, à insegurança e ao crime, que se agudizaram com o aprofundamento da recessão económica, qual foi a resposta dos partidos socialistas? Perante as questões bem reais da emigração e da identidade nacional, da coesão, quem ouviu uma posição socialista?

Estes são temas fundamentais na Europa de hoje. Questões em relação às quais se nota uma timidez, à esquerda, e um claro marcar de posições, à direita. Veja-se, por exemplo, a problemática à volta da adesão da Turquia, um assunto de grande sensibilidade política. Um tema que toca directamente nos problemas de identidade cultural da Europa. A direita não hesita. A esquerda perde-se num discurso indeterminado.

A presidência da Comissão foi outro terreno de indefinição. Enquanto a direita tinha, com mais ou menos relutância, um candidato, os socialistas não apresentaram nenhum nome. Um vazio de liderança socialista, ao nível europeu. A política faz-se em torno de personalidades. Quando estas não são visíveis ou não existem, a mobilização eleitoral é muito mais difícil.

As prioridades em Bruxelas são hoje quase todas copiadas dos manifestos dos partidos do centro-direita: o comércio internacional sem barreiras, a globalização, a competição e liberalização, as limitações aos défices orçamentais, o apoio aos grandes agricultores, o alinhamento incondicional com a NATO.

Os socialistas, com o Presidente Obama na Casa Branca, até a bandeira do antiamericanismo perderam. Nalguns países, como na Grécia, na Itália e no Reino Unido, e em certa medida, em França e na Alemanha, os partidos socialistas estão em crise profunda, paralisados por lutas internas.

Parece que deixou de haver um quadro de referência ideológico de esquerda. Durante vários anos acreditou-se que o pragmatismo era incompatível com as posições de princípio. O importante era fazer, que os benefícios acabariam por chegar a todos. Foi um erro. Levou ao agravamento das disparidades sociais e minou a solidariedade. A ideia começou no mundo anglo-saxónico. A Terceira Via. Um percurso que os Trabalhistas britânicos e Blair iniciaram há uma dúzia de anos e que parece ter levado os partidos socialistas europeus para um beco sem saída.