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A maneira como a assistência humanitária se tem desenrolado revelou várias verdades

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A tragédia que se vive no Haiti atingiu um novo patamar na escala do sofrimento colectivo. O tsunami da Sudeste Asiático, em Dezembro de 2004, terá causado cerca de 300 000 vítimas, mas os problemas de sobrevivência, para os que escaparam ao desastre, puderam rapidamente ser superados. Hoje, as regiões nas margens do Oceano Índico, que haviam sido afectadas pelo tsunami, estão reconstruídas e voltaram à normalidade.  No caso do Haiti, as vítimas são essencialmente populações urbanas, sem meios, pobres até ao extremo. Vivem num país sem recursos naturais, que são normalmente a tábua de salvação imediata para as populações. Ou seja, estão totalmente dependentes da assistência externa. E assim irão ficar por muito tempo. Por isso penso que estamos perante uma crise em que o sofrimento humano se vai prolongar, numa situação de grande precariedade.

Nestas circunstâncias, a comunidade internacional, para além de dever ajudar a enterrar os mortos e cuidar dos vivos, tem que chegar, sem demora, a um acordo que combine, de um modo integrado, a resposta humanitária com a recuperação das infra-estruturas e o desenvolvimento económico. É necessário, também, fortalecer as instituições do Estado. Estávamos, antes da catástrofe, perante um Estado fraco e ineficiente. Temos, agora, uma administração em ruínas. A tarefa de reconstruir a aparelho administrativo não será tão urgente como as relacionadas com o tratar dos feridos, a restauração do abastecimento de água, a distribuição de comida e o acompanhamento psicológico das populações traumatizadas. Mas deve ser encarada como uma prioridade. As Nações Unidas, os países amigos do Haiti, podem assegurar a ordem pública, durante algum tempo. Mas a governação tem que voltar a ser obra dos Haitianos.

A organização de uma conferência internacional sobre a reconstrução do Haiti deve ter lugar logo que possível. Será o momento, também, para se reflectir sobre a história recente, as várias crises das últimas décadas e procurar uma solução duradoira. Não é normal que a população de um país que está às portas dos Estados Unidos tenha como único objectivo na vida emigrar, fugir da sua terra, abandonar tudo e todos. Ou teremos chegado, hoje, a uma fase irreversível na vida desta nação, que nos faça crer que este país é inviável? Penso que não há que ter medo de colocar esta questão na agenda da conferência.

Entretanto, a maneira como a assistência humanitária se tem desenrolado revelou várias verdades. Primeiro, que a capacidade de resposta dos Estados Unidos, quando existe vontade política de a mobilizar, é muito superior à das outras nações. Em segundo lugar, as estruturas humanitárias da União Europeia continuam a revelar falta de aptidão, quando é preciso estar urgentemente no terreno. Têm fundos muito importantes, mas não têm máquina. Terceiro, não existe uma coordenação eficaz entre os serviços de protecção civil europeus. Cada um decide por si, como sempre o fizeram, como se não houvesse um projecto europeu. Quarto, Bruxelas demorou quase uma semana para convocar uma reunião dos Estados membros. Só o fez esta Segunda-feira, perdendo assim um tempo precioso. É como se, em alturas de crise, não se justificasse sacrificar os fins de semana dos ministros. Sem contar que Bruxelas revelou confusão institucional, sem se perceber bem qual é a divisão de tarefas entre as Relações Exteriores e a ala humanitária. Finalmente, a coordenação ao nível do teatro de operações, a planificação das intervenções das diferentes equipas de emergência, foi deficitária. Aqui falhou a ONU, que deveria ter tomado, de imediato, a direcção das actividades de socorro.