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Depois da Primavera

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No Norte de África, quase 2 milhões de jovens chegam anualmente ao mercado de trabalho. A emigração para a Europa ou para terras do Médio Oriente mais afortunadas não é solução

Victor Ângelo

Kadhafi saiu de cena na véspera das eleições gerais na Tunísia e um mês antes das legislativas no Egito. Se tivesse sobrevivido a estes dois exercícios eleitorais, não teria entendido o seu significado para o futuro da região: o sucesso da Primavera Árabe passa pela consolidação da democracia. Esta é a questão política fundamental. As transições nos países em que as revoltas populares conduziram à queda das ditaduras - Tunísia, Egito e Líbia - devem ter como objetivo prioritário a edificação das instituições que são os pilares da democracia. Não será um processo linear. Assistiremos a altos e baixos. Mas passa, obrigatoriamente, pelo respeito dos direitos humanos e do pluralismo político e religioso. Os riscos de fraturas internas existem. Por isso, os extremismos de cariz religioso ou étnico terão que ser contidos por lei e pelas instituições.  

Do lado da economia, a prioridade absoluta é a criação de emprego. Dados recentes, permitem estimar que, em cada ano, no Norte de África, cerca de 1,9 milhões de jovens chegam ao mercado de trabalho. O desafio parece descomunal. Tem que ser enfrentado. A emigração para a Europa ou para terras do Médio Oriente mais afortunadas não é solução. Do lado europeu, as portas continuarão tão fechadas quanto possível. No Médio Oriente, a competição com os profissionais bem preparados, vindos da Índia e de outros cantos da Ásia, coloca os norte-africanos em desvantagem. A solução está no crescimento económico. Para que aconteça de modo acelerado, é preciso criar um mercado comum na região. A verdade é que, apesar dos esforços da Liga Árabe e dos vários tratados sobre a livre circulação de mercadorias, incluindo o Acordo de Agadir de 2007, entre Marrocos, Tunísia, Egito e Jordânia, não se tem conseguido ultrapassar as barreiras e as rivalidades nacionais. Os países da região pouco ou nada trocam entre si.

A UE não tem favorecido a integração económica árabe. Prefere continuar com a prática que vem dos tempos coloniais, em que as relações se fazem entre os países a norte e a sul do Mediterrâneo, numa base bilateral. Uma maneira de fazer não impede a outra. É, aliás, no interesse dos países europeus que haja um espaço económico mais aberto, no Norte de África, capaz de gerar riqueza, bem-estar e estabilidade para as suas populações. Também deveria ser preocupação da Europa ajudar os países da região a criar um melhor clima de investimento. O Egito, por exemplo, que tanto precisa de novos projetos, aparece na posição 110, na lista do Banco Mundial que classifica os países no que respeita à facilidade de empreender. Porquê? Por causa da ineficácia dos tribunais comerciais, da corrupção, da complexidade do sistema de impostos e da burocracia.

Não convém esquecer outra questão importante. A Primavera ainda não chegou à Argélia. É raro o dia em que os bairros pobres da capital e das principais cidades não sejam palco de motins. O mal-estar social, agravado pela recente escalada dos preços dos produtos alimentares, é geral. Mas o país continua numa espécie de estado de choque, paralisado pelas memórias da guerra civil e da violência dos anos noventa. Tendo em conta a relevância estratégica regional da Argélia, incluindo no combate aos terroristas ligados ao AQMI, a comunidade internacional, sobretudo a UE, deveria tomar a iniciativa de um diálogo político mais intenso com as autoridades de Argel. Seria uma contribuição significativa para a reconciliação nacional e a transição pacífica para a democracia nesse país, assim como para a consolidação da Primavera Árabe no Norte de África.