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De Boston para a Europa

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A videovigilância é um instrumento imprescindível para a eficiência da segurança interna

Victor Ângelo

A Europa está, de novo, com os olhos postos na América. Desta vez, refiro-me aos diversos serviços de segurança europeus que têm seguido atentamente os acontecimentos de Boston. Trata-se de procurar tirar o maior número possível de lições das circunstâncias do atentado e da resposta dada pelas polícias. O caso de Boston contém vários ensinamentos, mesmo quando se reconhece que a cultura policial americana não é inteiramente comparável à nossa.

Mas a segurança interna não é apenas um assunto de polícia. É, acima de tudo, matéria política, uma das funções essenciais do Estado. Por isso, seria aconselhável que, na Europa, os nossos eleitos refletissem igualmente sobre Boston. Não sei se assim acontecerá, pois os políticos passam por estas coisas, que acontecem em terras distantes e não influenciam os resultados das sondagens, como cão por vinha vindimada. Deixo aqui, no entanto, uma leitura que lhes poderia ser útil. 

Um primeiro ponto tem que ver com a autonomia do trabalho das polícias. Se a situação tivesse acontecido por estas terras, teríamos o poder executivo, o ministro da Administração Interna em particular, a telefonar ao chefe da polícia de cinco em cinco minutos, a dar ordens, a criar dúvidas, a intrometer-se em pormenores táticos. Nos Estados Unidos, não acontece assim. Obama e a secretária da Segurança Interna mantiveram-se informados, ao longo do processo, mas deixaram mão livre aos operacionais, para que decidissem segundo critérios profissionais.

Em segundo lugar, procedeu-se a uma mobilização excecional de meios, materiais e humanos, ativando todo o tipo de forças, mas de modo coordenado e com uma cadeia de comando bem definida e única. Por estas bandas, cada serviço procuraria puxar o protagonismo à sua sardinha.

Terceiro aspeto: houve a preocupação de resolver o caso sem demoras. As autoridades mostraram compreender que uma ameaça percebida como muita séria requer celeridade na sua resolução. As demoras contribuem para que o sentimento de insegurança se transforme num descalabro político, com impacto na credibilidade do Governo e das instituições.

Quarto: a gestão da comunicação social foi feita com equilíbrio. Reconheceu o papel da informação pública mas, ao mesmo tempo, manteve a produção de notícias dentro de limites, de modo a não prejudicar o trabalho de terreno e os progressos da investigação.

Quinto: a ligação entre a polícia e os cidadãos foi, uma vez mais, reconhecida como indispensável, apesar de alguns exageros das redes sociais.

Há uma outra dimensão que convém tratar de maneira especial: a importância inquestionável dos sistemas de videovigilância para a identificação dos suspeitos. Generalizado nos EUA, incipiente na Europa, onde apenas o Reino Unido tem, atualmente, uma rede comparável de câmaras de captação de imagens em lugares públicos. Ora, face às ameaças atuais, à criminalidade organizada e ao terrorismo, a videovigilância é um instrumento imprescindível para a eficiência da segurança interna. A este respeito existe, entre nós, a ideia de que as câmaras nas ruas são incompatíveis com as liberdades individuais e os direitos dos cidadãos. Esse dilema não faz sentido. A Grã-Bretanha não é menos democrática por ter, como tem, uma lente em cada esquina. O medo resultante da insegurança, esse sim, é que prejudica a qualidade da democracia.  

Finalmente, a integração social dos jovens provenientes de famílias imigrantes, com raízes ancestrais em zonas de conflito violento, requer mais atenção. Há aqui, de ambos os lados do Atlântico, uma lacuna por preencher.