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De Berlim à Europa, via Lisboa

Horizontes

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Em relação ao exterior, Merkel só joga com duas cartas: abstenção ou obstrução. É uma opção deliberada, que não vai mudar

Victor Ângelo

Com eleições para o Parlamento Federal já neste domingo, seria estranho não escrever sobre a Alemanha. Até porque discorrer sobre esse país permite refletir sobre a União Europeia (UE). Quer se goste quer não, a Alemanha é hoje o Estado que determina a agenda europeia. E, sejamos pragmáticos, no horizonte que é visível vai continuar a ser assim. Por isso, é bom que olhemos para Berlim com os olhos bem abertos e de modo desapaixonado, para além da paixão de consolidar uma Europa próspera e em paz consigo própria.

 A vitória de Angela Merkel parece um dado adquirido. Não irá, no entanto, conseguir governar sozinha. O parceiro da coligação atual, o Partido Democrático Liberal (FDP), não deverá ter votos suficientes para poder manter representação no Parlamento. Nesse caso, a solução terá de passar por um acordo do centro-direita, a família política da chanceler, com o Partido Social-Democrata (SPD), sob a forma de uma "grande coligação". Será, no entanto, uma aliança coxa, que só poderá funcionar em serviços mínimos, quer do ponto de vista da política interna quer no que respeita à Europa. Merkel, como chanceler, e Peer Steinbrueck, o cabeça de lista do SPD, como número dois do novo Governo, é um casamento político de pura conveniência. Fará pensar naqueles casais que vivem debaixo do mesmo teto por não terem outra alternativa. E que decidem que a melhor solução é deixar correr o tempo, sem fazer ondas.

A política externa será igualmente morna, na melhor das hipóteses. Como, aliás, já acontece há vários anos. Em relação ao exterior, Merkel só joga com duas cartas: abstenção ou obstrução. É uma opção deliberada, que não vai mudar. Não é falta de ambição. Baseia-se numa visão do mundo que considera a atual correlação de forças como sendo favorável à Alemanha e à sua presença nos mercados globais que contam: a Rússia, a Turquia e o Golfo Pérsico, mas, acima tudo, o Extremo Oriente e a Ásia Central. A preferência por uma diplomacia da indiferença perante as causas que não ponham em jogo os interesses alemães traduzir-se-á, no que respeita à Europa, na preocupação de manter o statu quo. É o aprofundamento da construção europeia quem vai pagar as favas. Para Merkel, o que conta é a livre circulação das mercadorias e a estabilidade do euro. Claro que resumir numa frase a política de Berlim é um pouco simplista. Mas permite chamar a atenção para o cerne da questão.

Uma Europa assim põe em causa vários projetos, nomeadamente a união bancária e um sistema comum de defesa. E, acima de tudo, o princípio da solidariedade entre os povos da União. Mas a verdade é que nunca houve a preocupação de fazer partilhar esse princípio com os cidadãos europeus, de lhe dar legitimidade popular. Ficou ao nível das elites. Na prática, transformou-se num monstro burocrático, criado para gerir os principais instrumentos da "solidariedade" - os fundos estruturais e de coesão, mais os destinados à agricultura e às pescas - e numa oportunidade para corrupção e obras de fachada. Não é de admirar, por isso, que a solidariedade esteja em crise.

No que nos respeita, a pergunta é evidente. Como deveremos agir, neste tipo de contexto? A resposta simplificada passa por ter voz e levantar o tom, nas instituições europeias. É altura de intervir com base numa posição nacional, que resulte de um consenso entre os portugueses. A nossa voz deve transmitir uma mensagem clara, fazer uma defesa inteligente dos ideais, valores e interesses comuns e defender, ao mesmo tempo, o que é justo para Portugal, sem subserviência nem ingenuidade.