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De África para a Europa

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E que tal pensarmos numa integração de proximidade, criando dois ou três grupos sub-regionais na União Europeia?

Victor Ângelo

Passei uma boa parte da última semana em Adis Abeba. Cada vez que volto à capital da Etiópia sinto como que um regresso ao passado. Foi aqui que comecei, em julho de 1978, o meu percurso africano. Mas, para além do simbólico, a cidade reflete as contradições de um regime político que teve a sua justificação na história distante de há três décadas e que agora tem medo de encarar um futuro que o pode pôr em causa. Ora, aqui como noutras partes de África, os riscos são reais: um crescimento populacional fora de controlo - 37 milhões de habitantes em 1978, mais de 86 milhões atualmente, sem contar com a população da Eritreia, que se separou da Etiópia em 1991; uma economia em expansão rápida, mas muito desigual e profundamente afetada pela burocracia e pelo nepotismo; um peso crescente das comunidades ligadas ao Islão, numa terra que ainda pretende apresentar-se oficialmente como sendo maioritariamente cristã; e as aspirações democráticas da juventude urbana, que quer viver numa sociedade liberta da opressão política. Andar com as costas viradas para o futuro, lá como cá, leva a uma caminhada incerta e aos tropeções.

Muito desta minha estada teve que ver com a União Africana (UA). Adis Abeba, ao acolher a sede da UA - instalada num magnificente edifício, inaugurado em 2012, construído e oferecido pela China -, continua a ser a porta de acesso político a África, como fora a minha porta de entrada no Continente. Porém, uma vez mais, o simbolismo é maior do que a realidade. Hoje, sob a direção de Nkosazana Dlamini Zuma, militante histórica do ANC e ministra dos governos sul-africanos pós-apartheid, a UA é uma instituição reconhecida mas com pouco poder. Quem manda em África são os chefes de Estado. Quando é preciso ir além das fronteiras nacionais, os líderes preferem entender-se no quadro das organizações sub-regionais, com destaque para a SADC (Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral) ou para a CEDEAO, que agrupa os Estados da África Ocidental. A cooperação entre vizinhos vale mais do que uma ambição do tipo continental. Nem sempre é fácil, reconheço, mas acaba por dar resultado. 

Perante isto, dei comigo a divagar ao longo de duas linhas.

A primeira tem que ver com a relevância das instituições. Existem por aí muitas estruturas que se tornaram irrelevantes. Assim tem acontecido com várias organizações internacionais, com centros académicos de reflexão, partidos políticos e mesmo com países que outrora haviam sido determinantes. Sempre tive a preocupação de me interrogar sobre a pertinência de cada uma das instituições a que estive ligado. Dizer que ninguém nos ouve, que a culpa é dos outros, não resolve o problema. Num mundo em mutação contínua, quem fica parado, no seu canto, deixa de contar. As estruturas que não têm impacto, ou que têm apenas uma justificação burocrática, estão condenadas a desaparecer. Ou, então, ficam apenas a fazer parte de um cerimonial protocolar sem substância.

A segunda divagação tem que ver com a Europa. Talvez fosse altura de aprender a lição que a África nos ensina. Ou seja, pensar numa integração de proximidade entre os países da UE, criando dois ou três grupos sub-regionais. Cada grupo aprofundaria a união à sua maneira e ao seu ritmo, dentro dos parâmetros gerais que tivessem sido aceites por todos. Trata-se, de certo modo, de estender a experiência do Benelux a outros cantos da Europa. O nosso lado da Península Ibérica poderia ser um bom ponto de partida.