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Davos, Cameron e a tempestade conservadora

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David Cameron abriu uma caixa de Pandora que pode levar à desconstrução da UE

Victor Ângelo

<#comment comment="[if gte mso 9]> Normal 0 21 false false false PT X-NONE X-NONE MicrosoftInternetExplorer4 Davos 2013 passou ao lado do cidadão comum, sem despertar interesse. Quarenta e dois anos após o lançamento do Fórum Económico Mundial, o nome oficial da coisa, o encontro transformou-se naquilo que os ricos e poderosos mais apreciam: uma oportunidade para passar uns dias juntos, num quadro de luxo exclusivo, seguro e tranquilo, com tudo a funcionar como um relógio suíço. A elite da política global e dos negócios não gosta de atrair o zelo inquisitivo das massas populares nem o escrutínio crítico que uma imprensa menos acomodatícia possa fazer. Não se importa, claro, de convidar uns exóticos com umas ideias singulares, mas tudo tem que decorrer de um modo controlado e com boas maneiras.

Este ano, do ponto de vista das ideias, Davos foi oco. Como as principais bolsas tiveram um bom desempenho em 2012 e dado que a previsão para 2013 é semelhante, havia optimismo no ar. Para a maioria dos que frequentam Davos, a economia que conta é a financeira. Por isso, para além das referências genéricas ao crescimento económico, que não podiam deixar de ser feitas, não houve espaço para discutir o que de facto aflige quem vive na economia real. Questões relacionadas com a vida cara, a inadequação da formação académica à rapidez das inovações tecnológicas industriais, a desindustrialização da Europa ou o desemprego em massa dos jovens terão, quando muito, sido objeto de apartes, nas pausas informais.

O único motivo de alguma ansiedade teve que ver com a problemática da confiança. No início dos trabalhos, ficou claro, à vista dos resultados de um inquérito internacional, que hoje poucos confiam nos políticos e nos grandes homens de negócio. Apenas 19% dos entrevistados consideram que os patrões das multinacionais respeitam os valores morais. Quando se trata de políticos, a percentagem é ainda mais baixa: só 14% acreditam que as grandes decisões políticas têm em conta as normas éticas. Deve ter sido um momento ligeiramente doloroso, mas, quando se tem poder, estas coisas da falta de confiança entram por um lado e saem pelo outro. Mesmo quando se ouve dizer que a maioria dos cidadãos pensa que os líderes de agora, quer da política quer da economia, não estão à altura, não conseguem resolver os desafios da atualidade.

Um dos raros momentos com interesse foi a comunicação de David Cameron. Veio na continuação do discurso do dia anterior, sobre a posição do Reino Unido em relação à União Europeia. Cuidado! Sou dos que defendem que Cameron e os ingleses são para levar a sério. Muitos comentadores frisaram que a posição de Cameron, incluindo a promessa de um referendo em 2017, tem como objetivo apaziguar a ala mais nacionalista do Partido Conservador e unir o partido sob a sua liderança. Essa pode ter sido a intenção inicial. Mas é apenas uma parte da realidade. A verdade é que Cameron abriu uma caixa de Pandora que pode levar à desconstrução da UE. Inspirado por uma filosofia ultraliberal, que assenta na redução dos custos do trabalho e das prestações sociais, bem como na competição económica entre os Estados europeus, e, em certa medida, no nivelamento por baixo com os países emergentes, Cameron vai tentar dominar o debate europeu, nos próximos anos. É essa a estratégia que pretende seguir, para mostrar liderança. Se não houver, deste lado da Europa e no seu próprio país, quem lhe possa dar o troco devido, os estragos serão imprevisíveis. Mesmo que perca as eleições em 2015, o impacto do processo que agora abriu poderá ser muito profundo. Incluindo em Portugal. Aqui fica um primeiro alerta.