Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Contra a filosofia do martelo

Horizontes

Karzai e Abdullah têm de chegar a um acordo de governação

Quando a única ferramenta perto da mão é um martelo, não convém cair na ilusão de pensar que todos os problemas se parecem com um prego. Mais martelada, menos pancada, tudo se resolveria da mesma maneira. Pela força, com um só modelo em mente. Quem está habituado ao uso do martelo corre o risco de não ver a possibilidade de utilização de outros instrumentos.

Em política internacional, vive-se a mesma filosofia. As democracias ocidentais julgam que a única forma de legitimação de um governo, num país partido em cacos, passa pela realização de eleições gerais. As eleições são o martelo de saída da crise. Organizam-se eleições, tão cedo quanto possível, instala-se um presidente e um governo, e acredita-se que se tem muito caminho andado. Que a estabilidade fica garantida.

Até 2005, havia mesmo a tendência, ao nível do Conselho de Segurança das Nações Unidas, para considerar as eleições como um primeiro passo no processo de desengajamento da comunidade internacional dos países em crise.

Também existe o risco, entre as chefias militares, de cair na filosofia do martelo. Às dificuldades no terreno, ao espectro da derrota, responde-se com mais força. Pede-se mais homens, uma expansão das operações, uma intensificação da guerra. Ora, a solução pode ser outra, fora da esfera militar.

Aliás, nunca convém esquecer duas verdades fundamentais em matéria bélica.

Primeiro, uma guerra prolongada apresenta sempre o perigo de ser uma guerra que se pode perder. Segundo, a dimensão militar só tem significado se for utilizada para dar aos civis o tempo e a oportunidade de encontrarem uma solução negociada para o conflito.

Estas reflexões vêm a propósito do momento decisivo que se vive no Afeganistão.

É a terceira vez que escrevo, nas últimas três semanas, sobre o Afeganistão.

Penso que os EUA e os seus aliados estão a afundar-se num pântano de areias movediças. Os custos políticos, humanos e financeiros estão a atingir níveis difíceis de justificar. Os jovens soldados que caem todos os dias não podem morrer inutilmente. É essencial, por isso, alargar o debate sobre a intervenção ocidental e ajudar a encontrar novas vias. Mais mais marteladas, servem apenas para fazer estrondo, sem que se resolva o problema.

As eleições presidenciais transformaram-se no fiasco que todos conhecemos.

Um revés que põe em causa a estratégia seguida até agora pelos EUA e os outros países com tropas no terreno.

Uma nova volta eleitoral trará apenas mais divisões étnicas, violência, descrença e descrédito do regime, dos líderes nacionais e da comunidade internacional. Não é de recomendar.

A democracia, numa nação destroçada por conflitos internos, em que as condições mínimas de segurança não existem, tem de ser construída com base em compromissos políticos entre os principais líderes. Hamid Karzai e Abdullah Abdullah, os dois candidatos presidenciais, e os seus aliados mais significativos, têm de negociar uma plataforma estratégica e chegar a um acordo de governação.

A opção militar também não é solução.

Mais tropas, ou apenas aumentar o número de forças especiais, utilizar aviões sem piloto, intensificar os bombardeamentos aéreos das zonas de presença terrorista, são as propostas de quem pensa apenas em termos do uso do martelo. A solução também não é uma saída de imediato, um abandono, como alguns pretendem. Não se pode cair no simplismo do declarar a guerra ganha, fechar a porta e voltar para casa.

É urgente utilizar uma caixa de ferramentas mais universal.