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Confusões, desemprego e refugiados

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Fica-se com a impressão que o governo de Madrid está a perder o controlo da agenda e a mostrar sinais de confusão política

A notícia de que a taxa de desemprego em Espanha, um país que havia sido um exemplo em matéria de crescimento económico nos primeiros anos desta década, chegara aos 17,4% da população activa apanhou-me no meio do reboliço que sempre acontece quando, no meio do deserto, se tem que preparar a visita de um conjunto de altas personalidades. É, sem qualquer dúvida, um dado estatístico alarmante. Torna difícil continuar concentrado sobre a visita de três ex-chefes de Estado a uma região remota de África, a dois passos do Darfur. É que se trata de mais de quatro milhões de desempregados. Desde o início de Janeiro, a economia vizinha perdeu cerca de 9 mil empregos por dia.

Uma parte da explicação encontra-se na profunda crise em que o sector da construção civil se encontra. Ele havia sido, durante anos, um dos motores essenciais do crescimento. Diz a experiência popular, em vários países europeus, que quando a construção está em crise o resto da economia entra em parafuso. Assim tem estado a acontecer no caso espanhol. Todas as indústrias a jusante e a montante estão praticamente paralisadas, das fábricas de produção de materiais de construção até às empresas imobiliárias e de prestação de serviços. Mais ainda: com a quebra do poder de compra da libra inglesa face ao euro e os receios de estagnação na Alemanha e noutros países do norte da Europa, a que se junta uma Espanha com salários e custos de funcionamento altos, a Costa do Sol, a Costa Blanca, as Canárias e outros destinos turísticos, estão hoje a funcionar muito abaixo do seu potencial. Ora, em paralelo com o imobiliário, muito do progresso recente do país tivera o turismo como ponto de ancoragem. As centenas de milhares de latino-americanos que haviam emigrado para Espanha nos últimos nove ou dez anos estão hoje a procurar emprego no Benelux, na Alemanha e noutros países do espaço Schengen. Ainda bem, senão os números do desespero no país vizinho ainda seriam maiores.

As repercussões da crise espanhola sobre a economia portuguesa serão certamente importantes, tendo em conta o peso que os investimentos provenientes do outro lado da fronteira representam em Portugal. Sem esquecer também que, nos anos recentes, muitos jovens portugueses encontraram uma solução para o seu problema de emprego além-raia. E o que se passa com o turismo em Espanha terá certamente a mesma evolução em Portugal.

Para rematar tudo isto, fica-se com a impressão que o governo de Madrid está a perder o controlo da agenda e a mostrar sinais de confusão política. Mas não serão os únicos. Ao preparar a visita que antigos chefe de Estado farão, nos próximos dias, à zona do Chade que faz fronteira com o Sudão, reforça-se o sentimento de que a confusão é a linha directiva de certas decisões internacionais. Thabo Mbeki e outros dois ex-presidentes, Abubacar, da Nigéria, e Buyoya, do Burundi, dirigem uma iniciativa da União Africana sobre o Darfur, que inclui a questão das relações entre o Chade e o Sudão. Para além desta iniciativa, existem várias outras, sobre o mesmo problema. Uma diligência conjunta das Nações Unidas e da União Africana, outra do Qatar, uma outra da Liga dos Estados Árabes, mais uma da Líbia, que anima um outro projecto, conjuntamente com o Senegal e o Congo, sem contar o papel que Londres, Washington, Paris, Bruxelas e Riade procuram desempenhar... Aqui, como no caso da crise económica na Europa, as boas intenções abundam, os actores não faltam, as propostas surgem como cogumelos após um dia de chuvas. Falta, sim, a coordenação e uma linha estratégica imparcial, que seja aceite pela maioria dos intervenientes.