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O gesto de Abbas soou, para muitos, como um grito de desespero. Lembrou-nos que não há progresso nem otimismo, nas negociações de paz com Israel. Teve, ainda, o mérito de voltar a atribuir a responsabilidade a quem a tem: o Conselho de Segurança

Victor Ângelo

Ao entregar o pedido de adesão da Palestina à ONU, a 23 de setembro, o Presidente Mahmoud Abbas fez o que se espera que cada estado faça quando quer ser reconhecido pela comunidade internacional. 193 países seguiram o mesmo processo, nas décadas passadas. 

Mas, desta vez, trata-se de um caso especial. A Palestina é o centro de um conflito sem fim e sem esperança. É, igualmente, o melhor espelho das hesitações e ambiguidades da política internacional. Ou do cinismo, dos jogos de interesse e da duplicidade das grandes potências, como diriam os que estão menos habituados à linguagem diplomática. Por isso, o gesto de Abbas soou, para muitos, como um grito de desespero. Lembrou-nos que não há progresso nem otimismo, nas negociações de paz com Israel. Teve, ainda, o mérito de voltar a atribuir a responsabilidade a quem a tem: o Conselho de Segurança.

Sempre hesitei em escrever sobre este tema, uma crise profunda e complexa, raramente analisada de um modo isento e pragmático. Combina os ingredientes mais explosivos que se possa imaginar: narrativas históricas ultranacionalistas, baseadas na exclusão e na diferença, radicalismo religioso, choques identitários, memórias de sofrimento coletivo extremo, tudo num ambiente de humilhações quotidianas e de violência. Os povos de Israel e da Palestina, cada a um a seu modo, definem-se pelos seus traumas e pelos seus medos. Quem estiver de facto disposto a ajudá-los tem que ter uma postura equilibrada e começar por responder à questão das ameaças e dos pavores. 

A segurança de ambos é o ponto central. Os problemas dos refugiados, dos colonatos, de Jerusalém, do traçado das fronteiras, do acesso à água, da economia, têm que ser vistos, antes de mais, sob o prisma da segurança. É fundamental, por isso, encarar a segurança como um conceito amplo e multifacetado. Deve ter em conta a visão tradicional da soberania nacional. Mas também deve incluir as dimensões mais imediatas do respeito pela dignidade humana, pelos direitos e a sobrevivência de cada cidadão. Trata-se, assim, de negociar, com ambas as partes, o seu entendimento das garantias de segurança que consideram indispensáveis. 

Este não é o melhor momento para pôr o Conselho de Segurança contra a parede. Obama está preocupado com a sobrevivência política. A sua margem de manobra em relação aos lóbis que apoiam Israel é nula. O Presidente mostrou, no discurso na ONU, um alinhamento total com o estado hebreu. A UE está sem peso nem prestígio, devido à crise económica e por ter uma política externa comum balbuciante. A Rússia, outro membro do Quarteto, mostra um interesse distante em relação ao assunto. Prefere, aliás, passar pelo Quarteto, uma fórmula que se tem revelado ineficaz, em muito por causa de Blair, o principal animador deste mecanismo, ser um enviado a tempo residual, em virtude dos seus múltiplos afazeres. 

Apesar de tudo, o Conselho não se pode esquivar à responsabilidade. Também não pode ignorar que as alterações políticas resultantes da Primavera Árabe criaram uma nova dinâmica na região, que, a prazo, não é favorável a Israel e à continuação do impasse. A solução passa por manter o pedido de adesão em análise, sem votação a favor ou contra. Igualmente, pela revitalização do Quarteto, evitando, como está de novo a acontecer, que as suas propostas pareçam enviesadas a favor de Israel. E pela definição dos pontos concretos da agenda para a paz. Por muito pessimistas que sejamos, temos que encarar, a sério e sem mais demoras, a via das negociações.