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Cameron errou

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Cameron mostrou falta de liderança por se ter deixado aprisionar pelos extremistas de Westminster e pela opinião pública mais retrógrada ou O Reino Unido definha e precisa, para se justificar, de fazer reviver os papões de uma Europa hostil

Victor Ângelo

As sociedades em declínio, que vivem com os olhos postos nas glórias do passado, caem facilmente na tendência de se fecharem sobre si próprias. Para esses povos, a História acaba por pesar mais do que o futuro. As elites reacionárias apropriam-se da tradição e dos preconceitos de outrora, e transformam-nos nas novas bandeiras do populismo. Assim surgem as agendas políticas nacionalistas. O Reino Unido, com o Partido Conservador no poder, é o exemplo mais óbvio. Trata-se de um país em definhamento, que precisa, para se justificar, de fazer reviver os papões de uma Europa hostil.

Uma boa parte da comunicação social britânica joga no mesmo sentido. A Grã-Bretanha tem um leque de jornais que distribuem milhões de cópias por dia. O dinamismo dessa imprensa é ofuscado pela vulgaridade e a desinformação. Deixemos de parte o que é vulgar. Um dos objetivos fundamentais da desinformação diz respeito à Europa. O leitor é alimentado, cada dia, por um chorrilho de falsidades, tolices e exageros, com o objetivo de manchar a UE e as suas instituições, bem como certos países que, nos devaneios coletivos de muitos ingleses, são considerados como patéticos. O impacto desta campanha de longo fôlego é profundo. Mesmo gente bem preparada se deixa influenciar. Falava eu com a minha amiga Jenny G., responsável pela informação no seio de uma multinacional inglesa, aberta ao mundo e conhecedora da dinâmica internacional, sobre a recente cimeira. A "análise" que me fez pode ser resumida assim: o Reino Unido atravessa uma crise económica muito séria, já despende uma fortuna com a UE, não pode assumir novas responsabilidades financeiras, para salvar mais um par de países em falência.

Cameron não teria dito outra coisa. Não porque acredite que isso seja verdade, mas por saber o que pensa um grupo importante de deputados do seu partido, que explora os sentimentos nacionalistas do eleitorado. No caso da cimeira, Cameron sabia que não podia voltar a casa sem ter mostrado que havia lutado por algo que é central para os interesses que apoiam o seu partido: evitar que Bruxelas adote uma taxa sobre as transações financeiras. Esta é a obsessão atual dos Conservadores. Estão convencidos de que uma decisão desse tipo dará um golpe mortal no papel de Londres como centro financeiro mundial. Veem nisto uma vingança alemã, em virtude da competição que Londres faz a Frankfurt, a cidade que a chanceler quereria transformar na capital financeira da Europa.

Mas o primeiro-ministro mostrou falta de liderança por se ter deixado aprisionar pelos extremistas de Westminster e pela opinião pública mais retrógrada do país. E errou. Taticamente, por não ter consultado previamente Clegg, o seu parceiro de coligação. Em seguida, por não ter entendido a importância do que estava em jogo. Quando a questão era a sobrevivência do euro, como poderia crer que haveria disposição para discutir assuntos laterais, apenas relevantes para si? Errou, ainda, por não ter preparado com cuidado os seus argumentos. O que disse tinha pouca base de sustentação, os argumentos jurídicos e políticos eram simplistas. Errou, igualmente, por não ter feito um trabalho diplomático prévio, junto de um punhado de Estados, para tentar ganhar apoios. Errou, sobretudo, por não ter percebido que a maioria da UE considera o atual Governo britânico uma força de obstrução, que se opõe por sistema a todo o tipo de iniciativas que reforcem o projeto comum. Mas há mais. Arrisca-se a errar uma vez por todas, se não souber corrigir o tiro em falso que acaba de dar.