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Baku-Bruxelas-Lisboa

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Ainda bem que não existem agências de rating para classificar as capitais. Caso contrário, em que nível nos colocariam?

Victor Ângelo

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Para o viajante experimentado, percorrer as ruas de uma cidade-capital é como ler o preâmbulo de um livro sobre a situação política e social do país. Sem esquecer que, para muitos, a capital não é apenas a porta de entrada mas, igualmente, o único ponto de contacto com a realidade do país em causa. A imagem que projeta tem, por isso, uma influência determinante na opinião internacional. Assim se compreende que o poder político, por esse mundo fora, dê uma atenção muito especial ao arranjo da sua urbe principal. A reputação externa é uma dimensão fundamental do património nacional. É óbvio que umas pracetas bem ordenadas não chegam para definir um país, mas também é verdade que contribuem, de modo significativo, para que a impressão geral seja positiva.

Baku, no outro extremo do espaço europeu, é um exemplo interessante. Era, nos tempos soviéticos, uma aglomeração feia e de fim de linha. Uma espécie de estaleiro industrial enferrujado, definido por torres arcaicas de extração de petróleo, um porto de aspeto lúgubre e blocos de apartamentos sem graça, tipo plano quinquenal. Hoje, a capital do Azerbaijão é um símbolo de modernidade. As avenidas e os parques são de grande beleza e ostentam edifícios desenhados por alguns dos melhores arquitetos do mundo. A cultura ocupa um lugar importante no quadro urbano. Para quem agora visita Baku, as mensagens políticas são claras: estamos na Europa, não somos como o vizinho Irão, embora partilhemos a mesma fé xiita, temos meios e podemos ser o centro de negócios desta parte do globo. É verdade que a febre de renovação também faz pensar em novo-riquismo e corrupção, nas altas esferas.

Bruxelas, mais perto de nós, revela um outro tipo de situação: uma capital que tem sido pouco a pouco abandonada pelas duas comunidades nacionais da Bélgica. Sobretudo, pelos flamengos. Uma grande maioria vê Antuérpia, Gand e Lovaina, na Flandres, como os novos centros de poder. Na parte Sul da Bélgica, em terras de língua francesa, surgiu um sofisticado corredor suburbano que vai de Waterloo a Namur. A capital transformou-se, entretanto, numa aglomeração dicotómica. Em certos bairros, instalaram-se os emigrantes e parou a modernização urbanística. Noutras áreas, bem organizadas, limpas e mais agradáveis para viver, encontramos os eurocratas e todos os que giram à volta das instituições e dos lóbis europeus. Bruxelas reflete o divórcio político belga e, ao mesmo tempo, as diferentes condições dos estrangeiros que a habitam.

Falemos agora de Lisboa. Quem a visita, fica com uma imagem negativa da capital e de Portugal. Para nós, não é novidade ver o abandono em que se encontra a cidade, os prédios a cair de podre e outros a pedir cal, o caos do estacionamento, a indisciplina e a abundância do lixo. Até o Terreiro do Paço, agora refeito, tem à sua frente uma estação fluvial a clamar por pincel e tintas. Projeta-se, assim, um município incompetente, um Estado deixa andar e em falência, bem como uma população a precisar de umas lições de civismo. Com a incúria de alguns, perdem todos. Nunca me esquecerei do que os responsáveis do investimento externo de Singapura me disseram, há tempos, para justificar a falta de interesse em Portugal: não é apenas a qualidade do projeto que conta, é, de igual modo, o seu enquadramento num tecido urbano e natural bem gerido e valorizado.

Ainda bem que não existem agências de rating para classificar as capitais. Caso contrário, em que nível nos colocariam?