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As Lajes e os jogos de defesa

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Açores deixaram de ter relevância logística e os EUA apostam na concentração de meios militares em Morón e Rota, na Andaluzia

Victor Ângelo

No campeonato das relações de defesa entre a Península Ibérica e os Estados Unidos, o resultado é favorável a Espanha. Ou seja, por um lado, o Pentágono foi reduzindo, a partir de meados dos anos 90, a utilização da base das Lajes. E isso sem que ninguém, nos Açores ou nos diferentes governos que passaram pelo poder em Lisboa, levantasse um sobrolho. Nem mesmo em fevereiro de 2012, quando a primeira notificação da intenção final dos americanos foi transmitida ao Palácio das Necessidades. Por outro lado, e simultaneamente, Washington foi investindo na relação com os nossos vizinhos. Em Espanha, Morón, a 60 quilómetros a sudeste de Sevilha, tornou-se, assim, o principal centro operacional da força aérea americana na Península Ibérica. A sua importância começou a ser clara em 1999, durante a intervenção militar no Kosovo. Mais tarde, com o desenrolar das operações no Afeganistão e no Iraque, ganhou novo peso, embora, depois, tenha perdido parte da sua utilidade com a concentração de muitas das operações aéreas e das atividades conexas no complexo militar de Ramstein, em território alemão. Morón voltou, no entanto, a ganhar relevo em 2011, quando serviu como centro operacional dos aviões tanques americanos que abasteceram, em pleno voo, os jatos de combate que atacaram o regime de Kadhafi. 

Morón tem ainda a vantagem de funcionar em tandem com uma base naval, situada 120 quilómetros a sudoeste, na zona de Cádis, não muito longe do Estreito de Gibraltar. Trata-se da Estação Naval de Rota, que tem um valor estratégico de primeira ordem. Rota é hoje uma peça fundamental da presença americana na Europa e no Mediterrâneo. A sua localização permite dar suporte, incluindo em matéria de telecomunicações e captação de informações eletrónicas, aos centros de comando americanos na Europa (EUCOM), no Médio Oriente, Ásia Central e África do Norte (USCENTCOM), bem como ao AFRICOM, que se ocupa da África subsaariana. Rota é, além disso, parte integrante do novo sistema antimíssil da NATO. Sem esquecer as funções que presta às missões espaciais da NASA.

Ao contrário do que se tem dito e escrito nos últimos dias sobre as Lajes, a decisão americana em relação aos Açores pouco ou nada terá que ver com uma transferência de recursos no sentido do Pacífico. Resulta, isso sim, da consolidação de um rumo que fora iniciado na altura das expedições aos Balcãs, e que se traduz, agora, num novo tipo de presença na Europa, com uma concentração de meios em Espanha e na Alemanha. Além disso, os Açores deixaram de ter relevância logística.

A surpresa que a decisão tem causado mostra que os políticos portugueses não estiveram atentos à evolução dos factos. Nem tampouco ouviram as vozes das chefias de defesa do nosso país, quando tentaram chamar a atenção, embora com algum exagerado recato, para as mudanças que estavam gradualmente a ganhar forma, na NATO e no quadro geoestratégico internacional. Esta desconexão entre as nossas elites políticas e as chefias militares e de segurança é, aliás, um dos pontos fracos do sistema português de defesa nacional. A minha constatação é que, a partir da segunda metade da década de 80, a liderança política de Portugal mostrou falta de sensibilidade para as questões militares e de inteligência bem como uma incapacidade de reflexão estratégica global, que visse Portugal num mundo em evolução rápida. O diálogo dos responsáveis governativos com as forças de defesa e segurança transformou-se num monólogo. Ora, quem não ouve quem sabe, facilmente erra. E estes tipos de erros ficam caros.