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A importância das agendas é definida pelas televisões de prestígio. Os líderes mundiais ficam à espreita, medem a onda de choque e mexem-se em consonância. O frenesim diplomático é proporcional ao impacto mediático.

O coronel Kadhafi escondeu-se por detrás da catástrofe japonesa. De 11 de marco, dia do terramoto e do maremoto, até à quinta-feira seguinte, 17, as televisões globais, que contam, no mundo ocidental, da CNN à BBC, da France24 à Euronews, focaram todas as câmaras no Japão. Apenas a Al-Jazira continuou, em certa medida, a produzir imagens sobre a crise líbia. Mas este canal não tem influência na opinião pública europeia ou norte-americana. Em Bruxelas, por exemplo, o principal serviço de cabo só transmite Al-Jazira em língua árabe. Para os imigrantes. Nos EUA, é uma rede desconhecida.

Com a atenção dos media no Oriente, Kadhafi aproveitou a oportunidade. Pôde utilizar a máquina militar e os mercenários para recuperar, com excesso e violência, o terreno que havia perdido. Sem dar nas vistas. Só que, com o passar dos dias, as imagens vindas do Japão caíram na rotina, perderam valor mediático. Ou seja, voltou a haver espaço para a Líbia. Viu-se, então, que o coronel estava às portas de Bengasi e pronto para uma limpeza sem dó nem piedade. A opinião pública ocidental indignou-se e os políticos entraram numa agitação febril. Em tempo recorde, foi aprovada a resolução do Conselho de Segurança, convocada uma cimeira de guerra para Paris e lançados os primeiros ataques.

Assim se faz uma boa parte da política internacional. A importância das agendas é definida pelas televisões de prestígio. Os líderes mundiais ficam à espreita, medem a onda de choque provocada por essas redes junto dos cidadãos e mexem-se em consonância. O frenesim diplomático é proporcional ao impacto mediático.

Seria de esperar que os empórios globais da informação conseguissem abarcar vários acontecimentos ao mesmo tempo. Até pela simples razão de transmitirem notícias sem parar. Não é assim. Quando há um tema maior, os outros são postos de parte. Deixam de existir, saem da antena. O tema maior mobiliza as equipas de reportagem e análise das grandes cadeias. E a estória é narrada em pormenor, discutida sob todos os ângulos, repetida ao longo das horas.

Esta prática permitiu ao coronel desaparecer do mapa por uns dias. Agora, que voltou à ribalta, há outros que se escondem à sua custa. O Presidente Saleh, do Iémen, é um deles. A repressão violenta, o uso desproporcionado da força, o número de vítimas civis, tudo aumentou para níveis inaceitáveis, na mesma altura em que a Líbia regressou às pantalhas. Se o Iémen foi objeto de notícia, não se notou, terá sido em pé de página. O ditador percebeu que não estava no radar e continuou a fazer das suas. O mesmo aconteceu no Bahrein. Que tempo de antena foi dado à ação militar, em larga escala, da Arábia Saudita e de outros Estados vizinhos, que vieram para salvar o regime despótico do rei Al-Khalifa? Ou, às detenções dos opositores? Às investidas dos soldados contra os hospitais? Às violações sistemáticas dos direitos humanos? Sem falar na situação interna na própria Arábia Saudita, que continua em efervescência política, não obstante as recentes larguezas financeiras do rei Abdullah. O soberano dispensa dólares com a mesma facilidade com que reprime, como na velha máxima da cenoura e do cacete.

Também é verdade que ninguém é neutro, nestas coisas. Nem mesmo quem diz ser um paradigma da verdade informativa. Assim, é bom que um perigoso extravagante, no Norte de África, permita encher o espaço informativo. Faz esquecer outros dinossauros antidemocráticos, que ainda habitam o mundo árabe, mas que, por ora, murmura-se, nos fazem jeito.