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Ninguém pode acreditar que a Europa, depois do caos, possa sobreviver em paz, a vender umas variedades de pastéis de nata

Victor Ângelo

Conheci-o em 2000, pouco depois de eu ter sido colocado em Harare (Zimbabué), no seguimento das primeiras invasões das fazendas. CG, como era conhecido, foi-me apresentado como um agricultor modelo, não apenas por ter uma quinta moderna e sem mácula, mas também por manter uma relação construtiva com o Governo de Mugabe, apesar das circunstâncias difíceis. CG tinha, na altura, 74 anos, mas estava rijo e era uma pessoa muito dada, de trato muito agradável, igual para brancos e negros. Acreditava que a "tempestade agrária" acabaria por passar. Produzia milho e trigo de alta qualidade, nos campos que rodeavam a casa grande, a uma dúzia de quilómetros da capital. O recheio da residência era um espelho de várias décadas de colonização inglesa, um museu de peças de outros tempos, um regalo para os olhos e para a curiosidade mental.

Alguns meses depois, no ano de aceleração da violência que foi 2001, o inevitável aconteceu: a quinta foi invadida pelos apaniguados do regime. O "farmeiro" e a mulher, tão idosa como ele, perderam tudo. Voltámos a estar juntos, uns meses depois. CG vivia, então, num minúsculo apartamento em Harare. Sem outros meios, sobrevivia a fazer umas contabilidades de pouca monta e a vender uns doces caseiros, bolos e outras tortas, que a mulher fabricava como podia. Disse-me, então, duas coisas: primeiro, que a má política pode roubar-nos o presente, mas não devemos deixar que nos tire a esperança no futuro; depois, que quando nos derrubam, não serve de nada chorar; uma pessoa volta a erguer-se, mantém o equilíbrio e segue em frente.

Lembrei-me dele ao ler o discurso que Barroso pronunciou no Parlamento Europeu, sobre o estado da UE. Foi uma comunicação bem argumentada, um bom misto de dimensões políticas com propostas técnicas concretas. É verdade que teria ganho mais peso se tivesse sido proferido com mais calma. Nos momentos graves, uma pose de estadista inspira mais respeito do que a de um tribuno arrebatado. Mas reconheço que defendeu com coragem uma questão fundamental: o aprofundamento da União. Disse claramente que insistir apenas na coordenação intergovernamental, nos repetidos acertos entre governos, não é suficiente. Para sair da crise e responder aos desafios globais, é preciso avançar com a integração política e reforçar a autoridade das instituições de governação comunitária. Ou seja, fazer o contrário do que está hoje a acontecer, inverter a tendência atual, que procura dar a primazia aos entendimentos entre Berlim, Paris e outras capitais, à custa do papel de Bruxelas.

Esta tomada de posição surge num momento em que a UE se encontra em risco de derrocada. A falência da Grécia é o ponto de partida da espiral. A estocada final pode estar por pouco e resultar da combinação da irresponsabilidade de Berlusconi, que não quer tratar a sério da situação das finanças públicas do seu país, com a rutura em cadeia, e para além dos limites do sustentável, da liquidez dos principais bancos europeus. Penso que o discurso deveria ter abordado com clareza essa ameaça. Até para que Barroso não desse a impressão de ser como CG, que, na véspera de ver o seu mundo ir por água abaixo, ainda acreditava na possibilidade de um milagre, que evitaria o desmoronamento anunciado do que fora a sua vida.

Mais haveria para dizer. Como, por exemplo, que ninguém pode acreditar que a Europa, depois do caos, possa sobreviver em paz, a vender umas variedades de pastéis de nata.