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Ano Novo em Sam Ouandja

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Sem o apoio da comunidade internacional, os estrondos, em Sam Ouandja, não virão dos foguetes das festas de Ano Novo

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Uma sugestão de última hora, para a passagem do ano, poderia ser Sam Ouandja. Para além do exótico e da aventura, a presença de um número de leitores nessa vila ajudaria os refugiados e a população local a entrar no Ano Novo com um pouco mais de tranquilidade. Traria confiança a um sítio onde se adormece, e acorda, com medo. Muito medo. Os cerca de cem rebeldes que ocupam Sam Ouandja ficariam a perceber que o mundo não se esqueceu deste canto remoto da República Centro-Africana. Seria também uma maneira de acalmar os seus ânimos guerreiros. Estes combatentes têm a rajada fácil.

É verdade que é complicado chegar a esta terra. Está a cerca de 120 quilómetros da capital distrital, Ouadda. Nesta altura do ano, a estação seca, o percurso demora pelo menos dois dias. E só com um todo-o-terreno. Recomendo, ainda, que se faça o trajecto sob a protecção de uma escolta, que os caminhos são frequentados por salteadores de estrada. Muitas das mercadorias à venda nas lojas, miseráveis cantinas do mato, provêem do vizinho Sudão, a mais ou menos oito dias de viagem, às cavalitas de um burro. Como outrora, o burro continua a ser o melhor amigo do homem, nestas terras onde a violência faz lei.

Mia Farrow esteve em Sam Ouandja em Maio de 2008. Em nome da UNICEF, visitou o campo de refugiados, que está situado logo à saída da povoação. Visitas deste género, feitas por celebridades que durante uns dias vestem os caquis de embaixadores de boa vontade, são Sol de pouca dura. Atraem um momento de atenção mediática, já esquecida na edição do dia seguinte. Não há continuidade. Quem se lembra, hoje, que Sam Ouandja alberga mais de três mil e duzentos refugiados, provenientes do extremo Sul do Darfur?

Os rebeldes sabem que os refugiados existem. Quem diz refugiados, diz assistência humanitária, recursos, por muito magros que sejam. A extorsão ajuda a manter a rebelião. Noutras zonas da minha área de operações, os homens armados atacam os trabalhadores humanitários directamente. Roubam-lhes os carros, assaltam-lhes as residências, tentam raptar os de origem europeia. Em Sam Ouandja, não há presas desse género. Até agora só havia pessoal humanitário centro-africano, uma mão mal cheia de pessoas, sem interesse económico. Mesmo estes tiveram que ser evacuados pelos meus capacetes azuis, há uns dias, face ao agravamento da insegurança.

Os rebeldes perderam dois homens, recentemente, numa emboscada. Acusam os refugiados. Uma acusação feita à toa, sem fundamento. Querem vingar-se e destruir o campo. Os notáveis da vila conseguiram que se chegasse a um acordo compensatório, a tradição de pagar pelo derramamento de sangue, conhecida entre os muçulmanos como dia. Ficou combinado um montante equivalente a 20 mil dólares, a entregar aos rebeldes até ao fim de Dezembro. É muito dinheiro, nestas savanas secas. Os refugiados, que estão sem comida há algum tempo, pedem que a ONU proceda à distribuição dos alimentos sem mais demoras, não para matar a fome, mas para os vender no mercado local. Depois, seria possível pagar a dia.

Não pode ser. Por isso, e por causa do clima de aflição que aí se vive, estive em Sam Oundja. A terra está vazia. Cerca de dois terços dos habitantes fugiram para o mato, ou para Ouadda, à espera que a crise passe. Encontrei-me com a associação dos líderes muçulmanos, que me deixaram impressionado pela seriedade e astúcia com que procuram resolver o conflito. Dialoguei, até cansar, com os chefes da guerrilha. Ouvi os temores dos refugiados. Sofrem o terror quotidiano com dignidade e fatalismo.

Estas gentes estão a viver uma passagem muito perigosa. Contam connosco. Sem o apoio da comunidade internacional, os estrondos, em Sam Ouandja, não virão dos foguetes das festas de Ano Novo.