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Afeganistão à vista

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Ninguém consegue combater melhor uma rebelião interna que os naturais do país

Os resultados presidenciais foram finalmente publicados em Cabul, sete semanas após o acto eleitoral. A demora resultou da necessidade de se chegar a uns arranjos políticos, que tiveram que ser orquestrados. Arranjos que tentaram pôr uns remendos numa eleição sem credibilidade. Quando assim acontece, a questão fundamental, que é a da legitimidade, sai ferida de morte. É o exemplo clássico de uma vitória de Pirro. Hamid Karzai  ganhou a manobra, mas talvez tenha perdido o futuro. Fica acorrentado a um processo de fraude eleitoral, que pode levar ao abismo político. É, hoje mais do que nunca, um parceiro de valor duvidoso. Num país mais fragilizado.

Nestas circunstâncias, a discussão sobre a estratégia internacional para o Afeganistão, que precisa de ser clarificada nas próximas semanas, não pode ficar centrada apenas na parte militar. Aumentar os efectivos militares da NATO e dos seus aliados não é a opção mais viável nem a solução para uma crise nacional profunda.

Não é viável porque 40 mil novos militares, bem preparados operacionalmente, não se encontram disponíveis da noite para o dia. Mais ainda. As opiniões públicas ocidentais estão a entrar numa fase de dúvida em relação aos custos humanos e financeiros da campanha do Afeganistão. Uma campanha que parece interminável e impossível de vencer. Sem contar que a justificação política da intervenção que é cada vez mais difícil de entender. 

A solução da crise tem que assentar em três pilares fundamentais. Primeiro, temos a questão da responsabilidade pela segurança nacional. As forças de segurança e de defesa afegãs têm que tomar a dianteira, passar a ser os principais actores no terreno. Ninguém consegue combater melhor uma rebelião interna que os naturais do país, que conhecem os usos e costumes, falam as línguas das populações, sabem como penetrar o reduto inimigo e obter as informações necessárias para o sucesso das operações. Os aliados internacionais têm que sair da linha da frente. Devem passar a exercer um papel complementar do sistema nacional de defesa, durante um período de tempo bem definido. E pôr a ênfase na formação das forças afegãs. No desenvolvimento das suas capacidades de planeamento, coordenação, informação e combate. Bem como no equipamento e modernização, incluindo um melhor equilíbrio étnico nos diferentes níveis da estrutura de segurança e defesa.

Em simultâneo, é preciso que a liderança afegã formule e implemente, com seriedade, uma estratégia de boa governação. Isto significa, no essencial, lutar contra a corrupção e o narcotráfico. Tem que se dar prioridade ao programa de combate à produção, transformação e comercialização do ópio, e evitar que os senhores da guerra se apoderem do poder regional e local.

O terceiro pilar diz respeito ao desenvolvimento económico e social. Houve, nos últimos anos, progresso em matéria de escolarização, de saúde pública, de crescimento comercial, nos centros urbanos. Mas as populações rurais, que são as primeiras vítimas dos taliban e a principal fonte de recrutamento de rebeldes, continuam na miséria. O apoio, sustentado e eficaz, às culturas alternativas ao ópio tem demorado. 

Estas três vertentes devem ser acompanhadas por uma estratégia paralela, que defina os critérios de execução da missão e de saída das forças aliadas. Neste momento, o compromisso ocidental com o Afeganistão não tem indicadores de progresso, não se baseia numa linha temporal, não exige uma responsabilização progressiva da liderança afegã. É um compromisso generoso e, em certa medida, idealista. Mas não pode ser assumido por tempo ilimitado.