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Abyei, Sudão, urgente

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Temos mais vocação para apagar fogos do que para fazer o trabalho de prevenção

<#comment comment="[if gte mso 9]> Normal 0 false false false MicrosoftInternetExplorer4 <#comment comment="[if gte mso 9]> <#comment comment="[if gte mso 10]> É muito provável que o leitor não saiba onde fica a região de Abyei. Também é quase certo que, em breve, passará a saber. Pelas razões erradas, como tantas vezes acontece. Abyei é uma crise que se anuncia. Um rastilho que pode levar o Sudão a uma nova guerra civil. Se assim acontecer, a comunidade internacional, incluindo a União Europeia (UE), terá perdido, uma vez mais, a oportunidade de agir antes do drama. Esta é, aliás, uma constante das relações internacionais: temos mais vocação para apagar fogos do que para fazer o trabalho de prevenção. Dito de modo diferente, quando falta clarividência, sentido das prioridades e coragem à diplomacia, torna-se necessário, com o tempo, chamar os bombeiros e os outros serviços de emergência humanitária.

Até agora, mencionar o Sudão, o maior país de África e um Estado-charneira nas relações entre as culturas africanas de base islâmica e as de inspiração animista e cristã, trazia à lembrança o mandado de captura contra o Presidente Omar al-Bashir e a catástrofe do Darfur. Abyei está à beira de se tornar o próximo título de primeira página. Na zona de fronteira entre o Norte e o Sul, o território deveria decidir, na mesma altura em que o Sul vai votar sobre o seu futuro, a 9 de janeiro, a que parte do país se quer juntar. É, por afinidade étnica e pela história, uma região do Sul. Assim foi decidido, em 2009, pelo Tribunal Permanente de Arbitragem, de Haia. Ora, as suas fronteiras não foram delimitadas, porque Cartum e Juba, a capital do Sul, não se entenderam. O recenseamento eleitoral, concluído há dias nas outras terras do Sul, não foi possível em Abyei. Sem listas eleitorais não haverá consulta e sem referendo e um compromisso firme que defina o destino da região, abre-se a porta ao conflito armado e ao sofrimento.

Não é apenas a questão do petróleo, nem a dos direitos das populações pastorícias, árabes do Norte, que utilizam o território na época seca, de janeiro a maio, para a transumância dos seus animais. Abyei é, para Cartum, uma boa maneira de fragilizar o Sul e obter concessões políticas, antes de 9 de janeiro, e no período de transição, após o referendo. É, igualmente, a prazo, se não houver um acordo claro, uma via de desestabilização de um Sul independente. Não será a única via, mas é certamente aquela que permitirá a Bashir jogar, nos círculos diplomáticos, uma cartada com uma aparência mais legítima. Permitirá, ainda, ao exército de Cartum intervir diretamente, sem ter que passar por intermediários, por rebeldes que matam por procuração.

Para o Sul, o caso de Abyei é altamente simbólico. Toca, diretamente, no coração do patriotismo. Para além de ser um ponto fundamental do acordo de paz de 2005, a região é a terra ancestral de alguns dos mais distintos combatentes pela independência, homens que hoje ocupam posições cimeiras na hierarquia militar de Juba. Sem esquecer que há armas um pouco por toda a parte, nas mãos das diferentes milícias populares.

É preciso que a opinião pública internacional compreenda a gravidade da questão de Abyei. Que entenda as repercussões internas e externas, nos países vizinhos, se a força e a violência ganharem a dianteira. Os líderes da comunidade internacional, incluindo os europeus, que agora se reúnem no Conselho de fim de ano, têm que dar mais atenção ao assunto. Têm que mobilizar o Conselho de Segurança, reforçar o mandato, a estrutura e a liderança da UNMIS, a missão de paz no Sudão, e cooperar melhor com a União Africana. Acima de tudo, devem ter a coragem e a firmeza necessárias para obrigar as partes a chegar a um acordo, sem mais demoras.