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A voragem síria

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Os presidentes dos EUA e da Rússia, têm de se empenhar, direta e pessoalmente. Dariam um excelente exemplo de liderança

Victor Ângelo

Frustração! Para quem passou boa parte da sua vida profissional a tentar resolver conflitos violentos por meios pacíficos, através de negociações políticas, a crise síria, sem solução à vista, traduz-se numa enorme frustração. As dezenas de milhares de vítimas, o sofrimento e o imenso desafio humanitário são a face mais visível e dolorosa do falhanço da comunidade internacional. Mostram que o Conselho de Segurança da ONU, enquanto expressão máxima da vontade coletiva, não funciona. Esta tragédia poderá ser considerada como o maior fracasso da história do Conselho de Segurança. E, por arrastamento, está a destruir o capital que havia sido investido em áreas como o dever de proteção das populações civis e a prevenção de conflitos. Por outro lado, o contributo para o agravamento da desestabilização do Médio Oriente é cada vez mais real. A intromissão, há dias, da aviação israelita é a mais recente prova desse risco. País charneira, a Síria tem ligações intrincadas com uma vizinhança já por si profundamente instável: o Líbano, a Palestina, a Jordânia, o Iraque e o Irão, sem contar com os curdos da Turquia e os xiitas da Arábia Saudita e do Golfo Pérsico.

O prolongamento e ferocidade da guerra civil têm levado à radicalização do conflito. Ambos os lados estão convencidos - erradamente - de que só existe um desfecho militar para o impasse atual. O mesmo se pode dizer dos governos que apoiam as rebeliões. Também eles acreditam que, mais tarde ou mais cedo, Al-Assad será derrotado, pela força das armas. Quanto aos países que estribam o regime, ou que lhe dão cobertura diplomática, limitam-se a fazer eco das posições de Damasco, sem aconselharem a elite no poder a procurar uma saída negociada e equilibrada.

Tem-se igualmente assistido a um reforço da presença dos grupos armados de inspiração religiosa extrema. É pouco claro qual o grau de coordenação e de comando e controlo que caracterizam as ações desses grupos. O que é óbvio é que estão hoje mais bem armados do que há meses, o que faz pensar que os apoios exteriores, quer dos Estados vizinhos quer da Europa, se concentram, atualmente, em meios bélicos e não em material de telecomunicações ou em cantis para a água potável. Um número crescente de combatentes provém do exterior, incluindo da Arábia Saudita. Muitos destes radicais voltarão, um dia, às suas terras de origem, levando na bagagem uma experiência de rebelião violenta. As cinzas sírias darão, assim, origem a outros fogos.

Reconhecida a gravidade e complexidade do presente, perguntar-se-á qual é a solução? Têm aparecido muitas ideias impraticáveis, incluindo o envio de uma missão multinacional, com robustez militar suficiente para impor o fim das hostilidades. Uma missão desse género só pode surgir no seguimento de um acordo interno de paz. Não é exequível enquanto a situação de guerra civil se mantiver. Sem contar com o facto de não existir base jurídica, na lei internacional, para o fazer. Nestas condições, o único passo viável, embora muito difícil, passa pela pressão política, sem ambiguidades, dos parceiros externos sobre as partes beligerantes. É preciso forçá-las a aceitar um cessar-fogo. Depois, devem discutir, sem condições prévias, a trajetória e os contornos da transição política. Para que isto aconteça, os principais dirigentes mundiais, sobretudo os presidentes dos EUA e da Rússia, têm de se empenhar, direta e pessoalmente, na questão. Dariam, ao mesmo tempo, um excelente exemplo de liderança. Quando a frustração é grande, a ambição tem de ser desmesurada.