Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

A selva europeia

Horizontes

Sarkozy estará mais frágil quando voltar a insistir na substituição de Barroso

Ter sorte na vida, em política e na guerra ajuda muito. Diz-se que Napoleão gostava de lembrar aos militares sob as suas ordens que um general sem sorte não interessa a ninguém, não tem futuro. Não há dúvidas de que Durão Barroso é um homem com sorte. O principal oponente à renovação do seu mandato como presidente da Comissão Europeia, Nicolas Sarkozy, acaba de meter os pés pelas mãos, desta vez de modo muito sério. Ao atacar, na semana passada, os líderes dos EUA, da Alemanha e de Espanha, de um modo grosseiro e com apreciações despropositadas de natureza pessoal, o Presidente francês colocou--se numa posição de fraqueza política. As objecções que tem levantado contra as capacidades do actual ocupante do Berlaymont, em Bruxelas, serão a partir de agora vistas como fazendo parte da mesma leva pouco diplomática com que atacou Obama, Merkel e Zapatero. Ou seja, perderam peso. Sarkozy estará mais frágil quando voltar a insistir na substituição de Barroso.

O nosso compatriota conhecera um período de azar em Fevereiro. Primeiro, a 9, quando o Presidente francês anunciou o plano para a recuperação da indústria automóvel. O plano era manifestamente proteccionista e para cúmulo tinha que ver com a retirada de investimentos franceses da República Checa. Com Praga na presidência da União, o plano apareceu na pior altura. Depois, dia 10, quando o primeiro-ministro checo organizou uma conferência de imprensa para responder à França. Com Barroso ao seu lado, falou da necessidade de se chegar a um acordo entre todos os Estados-membros sobre a crise económica. A cimeira prevista para 1 de Março, acrescentou, seria o momento ideal para aprovar uma posição comum. A isto, o presidente da Comissão juntou um apelo aos dirigentes europeus: "Lutar contra o nacionalismo económico, contra o proteccionismo interno, contra todas as formas de populismo e de extremismo." Tenha-se a cor que se tiver, a verdade é que foram palavras corajosas e correctas.

No círculo dirigente de Paris, foram vistas como um ataque pessoal ao Eliseu. A resposta oficial foi a de tentar explicar que não se tratava de nacionalismo económico. A resposta dos bastidores foi a de ponderar num outro nome para dirigir a futura Comissão. Nos dias que se seguiram, foram feitas várias pressões sobre Bruxelas. Sem êxito, porque a Comissão resolveu, e bem, que não existiam condições para um plano para a indústria automóvel, nos moldes tradicionais que o sector tem vindo a seguir e que levaram à crise actual.

Só que a sorte gosta de fazer umas partidas. E ainda bem. Não só por razões de realismo político: Barroso vem da família política que provavelmente continuará a ser a mais representada no Parlamento Europeu. Mas também porque tem desempenhado um papel esforçado, equilibrado e sério. Incluindo num contexto de grande complexidade, como o que se vive desde 2008. Contrariamente a certas afirmações partidárias, as políticas e opções que tem apresentado aos Estados-membros e à Comissão têm sido inspiradas por fortes considerações sociais. Também não marginalizou as questões ecológicas. Tem mantido uma excelente relação com os dirigentes das nações europeias e não só. Por isso, Merkel, Brown, Zapatero e Sócrates anunciaram claramente o seu apoio. Mais, tem desenvolvido a sua capacidade de escutar, de prestar atenção a opiniões diferentes. Espera-se que continue a fazê-lo. Finalmente, depois de vários anos na selva política de Bruxelas, aprendeu que não existem políticos perfeitos.