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A Europa pela positiva

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Ninguém percebe qual é o problema em deixar desvalorizar o euro. É mais fácil fazer aceitar uma desvalorização razoável da taxa de câmbio do que mais impostos ou cortes nos subsídios sociais

Economia à parte, a Europa vive também uma crise profunda de confiança política. Em 2009, os cidadãos deixaram de confiar na alta finança e nos grandes gestores empresariais. Estas categorias profissionais passaram a ser vistas pelo prisma da ganância desmesurada, a ser consideradas como gente de ética duvidosa e de escrúpulos malparados. Agora, é a vez de a classe política perder ainda mais uns pontos da pouca credibilidade que lhe restava. Os mesmos políticos que, dias antes, diziam que estava tudo bem, acabaram, uns dias depois, por aprovar medidas económicas excepcionais. É o meter os pés pelas mãos, o que, em política, tem custos elevados. O cidadão fica com a impressão que os dirigentes, das duas, uma: ou andavam a tentar ludibriar a opinião pública, ou não queriam ver o que era evidente para o resto da população. Também é verdade que na balança da indecisão pesou uma outra faceta: não se entendiam, com cada um a pensar na sua realidade nacional, nas próximas eleições.

Os telefonemas do Presidente Obama para Angela Merkel, Nicolas Sarkozy e José Luis Zapatero vieram reforçar a ideia de que a Europa tem líderes fracos e indecisos. Que se mexem apenas quando Washington faz pressão. Líderes que durante semanas andaram a repetir que a crise é da culpa dos especuladores financeiros, sem quererem reconhecer que haviam gasto o que não tinham e, mais, empenhado o futuro.

Por um lado, as declarações de que as medidas de emergência e de austeridade se destinavam a salvar a moeda comum não foram politicamente correctas. Revelaram falta de sensibilidade política. Quando muitos estão na pobreza, não se pode pôr a ênfase no agravamento da austeridade. Por outro lado, ninguém percebe qual é o problema de deixar desvalorizar o euro. Isso acontece regularmente com várias moedas. É mais fácil fazer aceitar uma desvalorização razoável da taxa de câmbio do que mais impostos ou cortes nos subsídios sociais. Trata-se, aliás, de uma das medidas de gestão de crises. O dólar, por exemplo, perdeu valor durante um longo período de 2009. A certa altura, parecia estar num processo de quebra irreversível, como hoje está a acontecer com o euro.

Nunca ninguém, em Washington, passou noites em claro por causa disso. Antes pelo contrário. Parte da recuperação actual da economia americana é devida a um câmbio mais competitivo.

Para voltar a ganhar a confiança dos europeus convirá pensar em dois tipos de medidas. Por um lado, é preciso pôr o acento tónico na protecção do nível de vida dos mais vulneráveis. São os indivíduos que contam, sobretudo os mais fragilizados pela crise. A atenção política tem de se focalizar no crescimento e na competitividade das economias europeias. O esforço e o discurso devem centrar-se nos programas que criem emprego, nos incentivos à recuperação económica, na produtividade, na reciclagem e formação profissional, na disciplina e no valor do trabalho.

Em segundo lugar, é preciso fazer renascer o projecto europeu. Voltar a falar da Europa como um ideal, uma aspiração colectiva. A ideia de um destino comum está a perder sentido. Cada nação está a refugiar-se, como antigamente, no interior das suas fronteiras. Esse, sim, é o grande risco com que nos confrontamos. É preciso trazer, de novo, para o debate público, as vantagens de um espaço económico e humano aberto aos outros. O valor da segurança colectiva. A força da união, quer em termos de competição com outras partes do mundo quer no relacionamento estratégico internacional. A Europa, para sobreviver, tem de voltar a inspirar os seus cidadãos.