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A Europa à procura de emprego

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Ao ouvir certos dirigentes europeus, dir-se-ia que o modelo de economia e de relações laborais que têm na cabeça é o do Bangladesh

Victor Ângelo

Apesar de gente próxima de Nicolas Sarkozy ainda acreditar na possibilidade de um milagre, François Hollande deverá ser eleito Presidente, em Maio. É, por isso, importante seguir a campanha eleitoral do candidato socialista. A França, embora já não seja o ponto de referência política que outrora foi, continua a ser um país de peso, no contexto europeu. Basta lembrar que quando o Eliseu telefona para Bruxelas, o pessoal do Berlaymont treme que nem varas verdes.

Hollande disse, recentemente, que a sua luta é contra o "grande capital". Embora não seja claro o que isso significa, como slogan a frase passa bem. Mas, como política, trata-se do alvo errado. É verdade que os movimentos dos capitais especulativos, interessados apenas em transações de muito curto prazo, atraem a atenção popular. Não são, porém, a causa da crise atual nem a questão central que é urgente resolver.  A crise é, antes de tudo, o resultado de uma derrapagem demagógica, oportunista, irresponsável e, em certos casos, criminosa, das finanças públicas dos Estados, agravada pelo conluio entre certos políticos e os bancos privados. A banca hipotecou-se para financiar, durante vários anos, Estados obviamente falidos, como o fez também em relação às famílias, criando uma ilusão de riqueza que não tinha alicerces na economia real. O foco, agora, tem que ser a reconstrução do tecido económico, guiada pela preocupação de criar emprego.

Hollande e outros, pela Europa fora, deveriam concentrar os esforços na luta contra o desemprego. Cerca de 24 milhões de europeus estão à procura de trabalho. O desemprego entre os jovens de menos de 25 anos é alarmante: um em cada dois, no caso da Espanha e da Grécia, um em cada três, em Portugal ou na Irlanda, um em cada quatro, na França. Esta situação não é nova: uma análise das estatísticas revela que este patamar de desespero existe há quatro anos. Sem esquecer que a tendência dos gráficos mostrava, com clareza, que o fenómeno estava em formação há pelo menos uma década.

Ao contrário do que por aí se diz, incluindo na cimeira da União de 30 de janeiro, as políticas de emprego não passam pela redução dos salários nem pela liberalização dos despedimentos. Ao ouvir certos dirigentes europeus, dir-se-ia que o modelo de economia e de relações laborais que têm na cabeça é o do Bangladesh: salários incompatíveis com o custo de vida e precariedade absoluta. É uma filosofia que desvaloriza a dimensão humana, o caráter libertador e criativo do trabalho. As outras receitas previstas pela Europa - formação profissional acelerada e projetos especiais - são meros paliativos que, na maioria dos casos, nem do papel para a prática passam. É agitação de políticos, o faz de conta habitual.

O que é preciso é combinar medidas macroeconómicas - a desvalorização do euro seria uma delas - com apoios concretos às empresas. O motor da economia é o empreendimento, o talento das pessoas para criar negócios, produtos e serviços para o mercado. É essa capacidade que deve ser acompanhada e expandida. As políticas públicas devem apoiar o crescimento da economia, com uma incidência especial nas áreas onde temos a possibilidade de ser excelentes. Devem, também, simplificar a teia impossível de exigências burocráticas que asfixiam as pequenas empresas.

Hollande deveria promover um debate a sério sobre a economia e o emprego. Estaria, assim, a repor a França no centro da renovação do projeto comum, algo que é uma vocação histórica do seu país. Essa, sim, seria uma grande vitória. Para todos.