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A encruzilhada espanhola

Horizontes

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Os bancos franceses são, depois dos alemães, os que estão mais expostos aos riscos da dívida espanhola

Victor Ângelo

Estive recentemente em Juromenha, na fronteira do Alentejo com a Estremadura espanhola. No limite do concelho do Alandroal, na margem direita do Guadiana, Juromenha foi praça-forte na História de Portugal. Hoje, o castelo está em ruínas e aberto aos vândalos. Mas continua a oferecer horizontes amplos. Do nosso lado, temos campos secos, entregues ao desleixo. É um Alentejo meio abandonado, parado no tempo, com uma economia rudimentar, propriedades que, nalguns casos, são meros recreios de gente rica da capital. Do lado de Espanha, o contraste não pode ser maior. Quando a vista atravessa o rio, regalamos os olhos com uma agricultura moderna, terras ricas, bem tratadas, que constituem a planície de Olivença. E que nos lembram que a Espanha se transformou, nos últimos anos, na horta e no pomar da Europa, com a qual mantém uma balança comercial positiva. As exportações espanholas representam 50% do PIB nacional e o seu crescimento acelerado revela o dinamismo de certos setores da economia vizinha.

Este é, no entanto, um país à beira de um resgate financeiro. Tem havido, nos últimos dias, uma pressão enorme, quer interna quer externa, para que Madrid submeta a Bruxelas um plano de reforma das finanças públicas e um pedido de ajuda, a acrescentar ao empréstimo bancário de junho passado. Internamente, a pressão tem origem sobretudo nos organismos representativos dos interesses comerciais privados, que receiam que a administração pública entre numa fase de rutura de pagamentos aos fornecedores nacionais de bens e serviços. No exterior, o principal aperto vem de França. Os bancos franceses são, depois dos alemães, os que estão mais expostos aos riscos da dívida espanhola. Têm vindo a diminuir essa exposição, mas, mesmo assim, estamos a falar de cerca de 90 mil milhões de euros. Sem esquecer que Hollande e Rajoy pertencem a famílias políticas opostas, com interesses divergentes na correlação de forças que se joga na União Europeia. Por outro lado, a decisão de Draghi sobre a compra de dívida soberana, na condição estrita de haver um programa de reforma aprovado pelas instituições europeias, foi outra maneira de mostrar a Madrid que o momento do resgate chegou.

Para além das considerações políticas e das hesitações que o definem, Rajoy considera um pedido de assistência como uma humilhação pessoal. É um erro ver a governação assim. A arrogância, tantas vezes o refúgio dos tolos, é a pior conselheira em política. Leva os líderes ao desastre e as nações ao descalabro. A verdade é que o primeiro-ministro tem um problema urgente de liquidez pela frente. Até ao final do ano, vai ser preciso honrar 83 mil milhões de obrigações e de pagamentos ao nível do poder central e mais 30 mil milhões no que respeita aos encargos das autonomias. Trata-se de necessidades de financiamento astronómicas, que não poderão ser inteiramente alimentadas pelos mercados. É isso que Rajoy precisa de entender, sem mais demoras. E iniciar um programa de reformas que racionalize as despesas, quer em Madrid quer nas regiões. Será também o momento de repensar as autonomias. E de aceitar que o único modelo viável para a Espanha é o de um Estado federal, mas com matizes. O país não pode continuar a dar poderes a regiões que foram criadas apenas para fingir que o caso da Catalunha é igual ao do resto da Espanha. É igualmente fundamental repensar o modelo económico, que tem contribuído para sérias distorções sociais: nos últimos anos gerou cerca de 7 milhões de imigrantes e 5 milhões de desempregados. Grandes desafios. Estará Rajoy à altura?