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A cimeira sem líderes

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Os senhores do poder acharam prudente reduzir a Cimeira do Emprego a um mero encontro de dirigentes de segunda linha

Temos que considerar o desemprego na União Europeia (UE) como um assunto prioritário. Pense-se nos cerca de 19 milhões de europeus hoje desempregados. Aos quais se deverão juntar, até ao final do ano, mais 4,5 milhões. São valores que não nos podem deixar tranquilos. Cada caso é um drama pessoal e familiar. Mesmo quando atenuado, como acontece nos Estados--membros mais ricos, por sistemas de protecção social eficazes. Esses sistemas, se a pressão continuar, acabarão, mais tarde ou mais cedo, por entrar em ruptura. Mas, acima de tudo, a questão do desemprego faz abanar os alicerces da governação democrática, da vida política em liberdade, da representatividade dos partidos tradicionais. Não tenhamos dúvidas. A generalização do desemprego está a colocar a Europa no patamar de uma crise política muito complexa. As ameaças à estabilidade institucional e à segurança das pessoas são reais. Os radicalismos, os desesperos de rua, os nacionalismos extremos de direita e as manifestações simplistas dos esquerdismos irrealistas, são cada vez mais previsíveis.

Nestas circunstâncias, seria de crer que a Cimeira do Emprego, a 7 de Maio, em Praga, atraísse os chefes de governo da UE. Tal como a cimeira equivalente de Novembro de 1997 levara ao Luxemburgo os líderes de então. A realidade será outra. Os senhores do poder, nos estados da União, acharam prudente reduzir a cimeira a um mero encontro de dirigentes de segunda linha. Sucumbiram aos argumentos e à pressão da Grã-

-Bretanha, da França, da Alemanha e da Itália, grupo a que se juntou a Bélgica. Esses países, habituados a definir a agenda de Bruxelas, acharam que uma cimeira sobre o emprego a um mês das eleições europeias, quando não há nada de novo a propor, nem ideias claras sobre como resolver o problema, seria contraproducente. Faria perder votos.

A reflexão sobre as políticas de emprego estivera no centro das preocupações internacionais na década de setenta. Com a chegada ao poder de Margaret Thatcher e de Ronald Reagan, passou a prevalecer a ideia de que o investimento privado seria a solução absoluta para a criação de postos de trabalho. O papel do Estado seria apenas o de remover todos os obstáculos ao livre exercício do capitalismo. O paradigma dominante passou a ser o da flexibilidade laboral, com contratos a prazo e despedimentos sem entraves. A liberdade de empreender, de abrir e fechar empresas, era a única filosofia que contava. Todo o conhecimento teórico sobre a promoção de emprego foi desaparecendo ao longo dos anos.

A Organização Internacional do Trabalho (OIT), que havia sido o depositário internacional do saber em matéria de emprego, foi mutilada e enfraquecida. É hoje uma sombra do que já foi. Há três anos, quando procurava especialistas que fossem capazes de conceber um programa de geração de emprego para jovens, tive a triste oportunidade de me aperceber de quanto se havia perdido, ao nível da OIT, em termos de capacidade técnica. Praga, à sua maneira, não fará mais do que confirmar esta verdade.