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Inquietações de inícios de maio

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Pascal Rossignol / Reuters

Quando o que está em jogo tem que ver com a salvaguarda dos valores da tolerância e do pluralismo, e a paz na Europa, não há hesitação que se justifique. Nem pedantismo intelectual que se possa aceitar

Vivo estes primeiros dias de maio com apreensão. Mas também me lembro que há um ditado popular que diz: “Maio me molhou, maio me enxugou”. Veremos.

Penso na segunda volta da eleição presidencial francesa, já neste domingo, e dou comigo a desejar que as sondagens tenham razão. Ou seja, que Emmanuel Macron consiga derrotar Marine Le Pen e ser eleito presidente. Esta esperança tem que ver com a minha condição de português e de europeísta. Sou dos que estão convictos que o futuro de Portugal passa, em boa medida, pelo reforço da coesão e da cooperação europeias. E que a França é um pilar indispensável para a continuação da UE.

Tenho igualmente em conta a clareza da escolha que os franceses têm pela frente. Não será a eleição ideal, na opinião de muitos. Mas é a realidade que saiu das urnas, no final da primeira volta. Temos de um lado, por muito que se lhe diga, uma visão democrática e arejada da política. Do outro, uma agenda perigosamente nacionalista, redutora e extremista. Na verdade, Le Pen dá voz a uma alternativa fortemente influenciada por sectores da sociedade gaulesa que são racistas e fascizantes. Quando o que está em jogo tem que ver com a salvaguarda dos valores da tolerância e do pluralismo, e a paz na Europa, não há hesitação que se justifique. Nem pedantismo intelectual que se possa aceitar, do género que por aí pulula e que gosta de laminar subtilezas às rodelas. Espera-se, isso sim, que todos os democratas e progressistas votem por Macron.

Penso igualmente numa outra eleição presidencial, a que terá lugar na Coreia do Sul, dois dias após a francesa.

Aqui a questão é de tipo diferente. Será que Kim Jong-un, o ditador do Norte, procurará aproveitar este final do período eleitoral para fazer uma das suas provocações habituais? Haverá um novo teste nuclear, nos próximos dias ou nos tempos de indecisão que se adivinham, após a presidencial? Ou permitir-se-á lançar uma outra qualquer iniciativa de cariz militar, que possa ser considerada como desestabilizadora e levar os americanos a intervir diretamente em território norte-coreano?

A situação na Península da Coreia e na região atingiu agora um nível de complexidade muito grave. A retórica atual, sobretudo a que vem dos lados de Pyongyang, não tranquiliza ninguém. Sou dos que vêem no comportamento do ditador uma mistura explosiva de loucura megalómana e de atração trágica pelo abismo.

Mais ainda, para além do que Kim possa decidir levar a cabo ou não, existe um risco muito elevado de um possível erro de apreciação. De cálculo, como alguns dizem. Nestas circunstâncias, é fundamental que o trabalho das agências de inteligência americanas e aliadas se faça de modo sereno, absolutamente profissional, sem pressões políticas. Qualquer ingerência política ou falta de objetividade, que as leve a concluir precipitada e erroneamente que o risco de uma provocação significativa é iminente, poderá levar a decisões impossíveis de justificar. Sem esquecer que o uso da força num cenário tão complicado abriria uma caixa de Pandora com consequências inimagináveis.

A prudência aconselha os diferentes protagonistas a procurar reduzir a tensão existente e a deixar que a eleição sul-coreana de 9 de maio e as transações pós-eleitorais decorram dentro da normalidade. Entretanto, há que continuar a jogar as cartas políticas disponíveis, apertando as sanções aprovadas pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas e acentuando o isolamento diplomático do regime de Kim Jong-un. A legalidade internacional e o bom senso assim o exigem.