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Não misturem o Excel com medalhas olímpicas, sff

Rui Tavares Guedes

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Depois do trabalho desenvolvido nos últimos anos, a canoagem devia ser visto como uma espécie de 'cluster' estratégico. Afinal, é apenas mais uma alínea na folha de cálculo quando se trata de reduzir despesas

Através do Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ), o governo mandou cortar 20% nos apoios concedidos ao desporto de alto rendimento. Em tempo de "vacas magras", a medida  é compreensível e justificada pela urgência de cortar na despesa do Estado, face ao chumbo nas "receitas" decidido pelo Tribunal Constitucional.

O que se espera de um organismo especializado, como o IPDJ, é que aplique qualquer medida, mesmo as decididas superiormente, com o exacto conhecimento da realidade que tutela e com o grau de profissionalismo que justifica, aliás, a sua existência. O IPDJ optou, no entanto, por aplicar um corte cego na folha de Excel. É preciso cortar 20 por cento? Já está: aplica-se o corte a todas as federações.

Atenção que este é um corte nas verbas destinadas ao alto rendimento, não ao fomento do desporto para todos. E, por isso, é preciso ser claro: algumas federações têm um rendimento mais alto do que outras. Algumas (poucas, infelizmente) têm um conjunto cada vez maior de atletas que consegue ganhar medalhas, em vários escalões, nas provas internacionais. Outras, em contrapartida, há anos que não conseguem qualquer resultado de relevo e estão limitadas aos talentos puros que, pontualmente, vão surgindo.

Depois do trabalho desenvolvido nos últimos anos, e que culminou com a conquista da única medalha portuguesa nos Jogos Olímpicos de Londres 2002 (a prata de Emanuel Silva e Fernando Pimenta), é natural que os dirigentes da Federação de Canoagem se sintam chocados com este "corte cego". E é legítima a sua revolta - até porque, ao longo dos últimos meses, foram ouvindo promessas de que o mérito ia passar, finalmente, a ser premiado.

É pena que isso aconteça, até porque a canoagem devia ser considerada uma espécie de "cluster" estratégico em Portugal: temos condições naturais ideias para a sua prática ao longo de todo o ano (os nossos rios e lagos não gelam no inverno como sucede na Europa central e do norte), temos um conjunto importante de clubes com fortes ligações às populações ribeirinhas, temos o maior fabricante mundial de kayaks (Nelo) e temos, neste momento, um conjunto de atletas a começar a disputar medalhas em várias disciplinas e escalões.

Pode não ser importante para o País, neste momento, que atletas como Teresa Portela, Joana Vasconcelos, Tiago Tavares, João Ribeiro, David Fernandes e os já consagrados Fernando Pimenta e Emanuel Silva tenham ganho medalhas nas provas internacionais realizadas nas últimas duas semanas, onde muitos outros atletas nacionais conseguiram quase sempre o apuramento para as suas finais. Mas se não é importante agora, também não lhes venham depois pedir medalhas, dentro de três anos, nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. É que não há medalha que se ganhe com uma folha de Excel.