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Como se mede a voz da rua?

Rui Tavares Guedes

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Foi na rua que nasceram as mais sãs utopias, mas foi também na rua que cresceram as piores ditaduras. Já houve revoluções que fizeram soprar ventos de liberdade e outras que apenas trouxeram opressão e desesperança. Para que tempos caminhamos agora?

Vivemos tempos interessantes, de acordo com a velha expressão chinesa. Tempos em que os acontecimentos que ocorrem serão lembrados, mais tarde, nos livros de História. Tempos em que todos os regimes políticos, sem excepção, são confrontados com novos desafios. Tempos em que governos e oposições enfrentam o mesmo dilema: como se ouve a voz da rua? Qual o verdadeiro significado das manifestações que ocorrem pelo mundo, da Turquia ao Brasil?

Independentemente das razões particulares de cada um dos protestos, há um traço comum que sobressai em todos eles: o divórcio crescente e cada vez mais visível entre as pessoas e os sistemas de governação política. Por muito que isso custe a muita gente, não se trata já da simples "rivalidade" entre esquerda e direita. É muito mais do que isso. Em todo o lado, o grito mais sonoro tem um mesmo tom comum e acusatório: vocês já não nos representam! Vocês (o poder) estão desligados de nós!

Não acredito que "as ruas" tenham sempre razão. Desconfio, aliás, e muito, do poder das maiorias. Mas, nestes casos, é impossível não perceber que há um crescente divórcio entre governos e governados, cada vez mais visível em todo os países - sejam eles pequenos ou grandes potências, emergentes ou em vias de desenvolvimento. Isto, porque há uma realidade nova e absolutamente imparável: as pessoas, em todo o lado, estão mais informadas, têm maior acesso a meios de partilha e comunicação, e conseguem organizar-se muito mais rapidamente em redor de interesses e causas - nem que seja através de um simples "like" numa qualquer rede social.

Pode ser apenas uma ilusão, concedo, mas é essa ilusão que tem gerado muito do cimento capaz de unir multidões com origens, interesses e "ideologias" tão diversas como aquelas que que se uniram no Brasil contra o aumento do preço dos transportes, na Turquia em defesa do Parque Gezi, mas também em Portugal quando a rua "chumbou" o projecto da TSU. 

É isto que fazem cada vez mais interessantes os tempos em que vivemos. E de uma coisa não tenho dúvidas: os tempos futuros pertencem a quem souber ouvir, de facto, o que dizem as ruas. Só não sei é se isso será bom ou mau...