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A segunda lição, cruel, de Telma Monteiro

Rui Tavares Guedes

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O combate de Telma Monteiro e Marti Malloy

Associated Press

A eliminação da porta-bandeira de Londres 2012 foi, naturalmente, um golpe duro na consciência de um país que, apenas de quatro em quatro anos, alarga os seus horizontes sobre o fenómeno desportivo. Mas foi ainda mais cruel para a judoca.

Rui Tavares Guedes em Londres

"A desilusão é um sentimento muito duro, tanto para os fãs e espetadores, como para os treinadores. Mas de todos os envolvidos ninguém sofre tanto a desilusão olímpica como o atleta. Eu sei muito bem o que isso representa: quatro anos de sangue, suor, lágrimas e fome (no caso concreto do judo) para que, num instante, todo um sonho se transforme num pesadelo que nos perseguirá por muito tempo."*

Estas linhas não são minhas. Pertencem a Nuno Delgado, e foram publicadas há quatro anos na revista VISÃO, quando, em boa hora, o convidei para assinar uma série de crónicas semanais durante os Jogos Olímpicos de Pequim. O título dessa crónica era "A lição de Telma" e foi publicada após a eliminação da judoca Telma Monteiro, em 2008, na capital chinesa. Um ciclo olímpico depois, e perante a repetição da derrota - desta vez ainda mais dura, rápida, inesperada e, porventura, traumática - as linhas daquele que agora é o vice-chefe da missão olímpica portuguesa continuam atuais e até ainda mais certeiras.

A eliminação, na segunda-feira, 30, logo no primeiro combate, da porta-bandeira da comitiva portuguesa na cerimónia de abertura de Londres 2012 foi, naturalmente, um golpe duro na consciência de um país que, apenas de quatro em quatro anos, alarga os seus horizontes sobre o fenómeno desportivo. Foi uma derrota que deixa marcas na autoestima coletiva e que contribui para o descrédito da capacidade dos portugueses para se superarem e ultrapassarem as dificuldades. Mas foi, acima de tudo, um golpe tremendo para Telma Monteiro, para alguém que passou os últimos quatro anos a esforçar-se por um objetivo e que, mais uma vez, o deixou escapar por entre as mãos.

O desporto é assim mesmo. Magnânimo para os vencedores e cruel para os vencidos. Feitas as contas, o que fica para a história são os resultados. E mais do que ninguém, Telma Monteiro sabe que às suas medalhas em Europeus e Mundiais lhe continua a faltar uma com os cinco anéis olímpicos - à semelhança de outras atletas com carreiras internacionais brilhantes, como Manuela Machado ou Naide Gomes, mas que não conseguiram subir a um pódium dos Jogos.

Com apenas três dias de Jogos, esta ainda não é a hora de começar a fazer balanços - embora este surpreendente apagamento do judo, com nenhum dos primeiros três atletas a conseguir ganhar sequer um combate, mereça uma reflexão urgente. E é ainda mais descabido entrar em grandes teorias sobre preparações psicológicas ou técnicas de combate, especialmente por parte de quem não faz a mínima ideia do que foram os últimos quatro anos de Telma Monteiro.

Se há lição que se pode tirar também desta derrota de Telma Monteiro é a de que os Jogos Olímpicos são mesmo a prova mais exigente e difícil do mundo. A manhã de competições no ExCel ditou isso mesmo, com a campeã e a vice-campeã europeias dos -57 quilos a serem eliminadas logo nos primeiros embates. E a norte-americana que eliminou Telma, e que muitos pensavam que tinha saído do nada, acabou por alcançar, afinal,  uma das medalhas de bronze.

Como estes primeiros dias de Jogos têm demonstrado em várias modalidades, aqui não há vencedores antecipados. Aqui estão os melhores atletas do mundo. E todos os portugueses que vieram a Londres só cá estão porque conseguiram cumprir os critérios - quase matemáticos - da qualificação olímpica. Não foram escolhidos a dedo, uns porque são polivalentes, outros porque dão bom ambiente ao grupo. Não, só cá estão porque, segundo as regras internacionais, estão entre os melhores do mundo. Mesmo que, às vezes, não nos lembremos disso.

*Foi fácil ir buscar este excerto da crónica de Nuno Delgado na VISÃO. Ela é um dos muitos textos incluídos no e-book "Portugueses nos Jogos Olímpicos - De Francisco Lázaro à idade dos ouros nas páginas da Imprensa", que tive o prazer de editar e que acaba de ser editado pelo Grupo Impresa. Disponível de forma eletrónica, para Kindle e não só, nas lojas da Amazom. Compra-se com um clic e descarrega-se num instante.