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Porque Obama vai ser reeleito

Rodrigo Tavares

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Quase um terço dos americanos não sabem que Romney é mórmon 

Rodrigo Tavares

Nos últimos quatro anos, a aura messiânica de Barack Obama desintegrou-se, a atribuição do Prémio Nobel da Paz acabou por não se justificar, algumas das suas promessas simbólicas não se cumpriram (como encerrar a prisão de Guantánamo) e a taxa de desemprego continua muito alta. Mas, mesmo assim, Obama vai ganhar a eleição. Porquê?

Em primeiro lugar, porque Obama é o atual Presidente. Na história das eleições americanas só nove presidentes não conseguiram ser reeleitos, incluindo três após a Segunda Guerra Mundial: George Bush, em 1992; Jimmy Carter, em 1980; e Gerald Ford, em 1976. Segundo as biografias dos derrotados, os vilões foram as diferentes crises com a segurança nacional e os ciclos de anomalia económica. Obama enfrenta uma crise financeira mundial, mas os americanos reconhecem que ela não é da sua responsabilidade.

Além disso, esta eleição deve ser decidida pelo eleitorado moderado, aquela massa cinzenta que não se considera nem totalmente liberal nem conservadora. A política americana, nos últimos anos, principalmente com a emergência do movimento ultraconservador Tea Party, foi marcada por um aprofundamento destas duas tendências, deixando milhões de americanos em situação de orfandade ideológica. Mas, segundo as estatísticas, a maioria destes desamparados prefere ser adotada por Obama a sê-lo por Romney, que escolheu para seu vice-Presidente um radical de direita.

É também importante salientar que, tradicionalmente, os americanos não concentram todo o poder num único partido. A formação que domina o Congresso, geralmente, perde força na Casa Branca e vice-versa. Após a vitória de Obama, em 2008, o eleitorado derrubou a maioria democrata na Câmara dos Representantes, nas eleições legislativas de 2010. A atual maioria republicana na Câmara (com 240 cadeiras contra 190 dos democratas), atemoriza  Romney.

Outro aspeto significativo é o voto da população latina. Representando cerca de 11% dos eleitores (24 milhões de pessoas), são bons multiplicadores de votos e representam uma importante fatia do eleitorado em Estados decisivos. Segundo as estatísticas, os hispânicos votam amplamente em Obama, apesar de o pai de Mitt Romney ter nascido no México e de o filho já ter aparecido várias vezes em público a falar um espanhol perfeito, com sotaque andino.

A religião dos candidatos também tem de ser contabilizada. É difícil um crente da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (mórmon) ser escolhido como Presidente de um país religiosamente conservador. Este argumento tem sido usado tão exaustivamente que já é considerado um  cliché. Mas assenta em bases realistas. Segundo uma investigação recente, 32% dos eleitores ainda não sabem que Romney é mórmon. E, entre aqueles que sabem, apenas 60% se dizem confortáveis com isso. Por outro lado, 82% nada têm a opor à religião cristã de Obama.

Finalmente, e mais importante do que tudo, Obama lidera em quase todos os chamados Estados indecisos (swing states, em inglês): Colorado, Virgínia, Florida, Iowa, Ohio. Para ser eleito, um candidato precisa de 270 votos do colégio eleitoral.  As vitórias nos outros Estados já estão mais ou menos decididas. Mas quem ganhar naqueles Estados decisivos define a eleição.

Em 1968, o pai de Mitt Romney perdeu as primárias republicanas na corrida à Casa Branca. Em 1970, a mãe de Romney perdeu as eleições para o Senado. Em 2008, o próprio Romney perdeu as primárias. Em novembro próximo, Romney deverá ter que vender a "empresa" familiar.