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O Exílio dos Otimistas

Rodrigo Tavares

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Portugal tem condições para ser um laboratório político. Os seus habitantes nunca estiveram tão disponíveis para aceitar mudanças

Rodrigo Tavares

O derrotismo em Portugal surpreendeu-me na última visita que fiz ao País. Dez dias depois, de volta ao Brasil, fui tocado pelo empolgado otimismo de centenas de jovens empreendedores que participavam num evento da comunidade portuguesa. Esta linha divisória entre estes dois portugais - um rezingão, o outro vibrante - pode ser apagada se Portugal se render ao apelo de uma geração de portugueses que clamam por criatividade e inovação.

A pequenez demográfica e territorial de Portugal castram oportunidades económicas e ambições políticas. Mas também pode ser vista como um poço de oportunidades. Soluções pioneiras de engenharia social e novos modelos de condução política dificilmente são aplicados em grandes países. É caro e arriscado. Mas Portugal, com apenas 11 milhões de habitantes (a população da cidade de São Paulo), tem condições para ser um laboratório político. Este é o momento certo porque, nos últimos 30 anos, nunca os portugueses estiveram tão disponíveis para aceitar mudanças. Mesmo que ousadas.

No início do século XX, a Suécia era um país pobre, com centenas de milhares de pessoas obrigadas a emigrar para os EUA a fim de fugirem à fome e à varíola. Mas com a ousadia de políticos como Hjalmar Branting, primeiro-ministro durante três mandatos (1920-1925), a Suécia foi gradualmente formando um novo modelo de Estado Social que ainda vigora nos dias de hoje. Outro exemplo vem da Islândia. Três anos depois de passar por uma crise financeira que derrubou o primeiro-ministro Geir Haarde, o país aprovou, em 2012, uma nova Constituição que foi discutida amplamente nas redes sociais, principalmente no Facebook. Como disse um dos membros do Conselho Constituinte, "creio que é a primeira vez na História que uma Constituição foi escrita basicamente na internet."

Portugal também pode inovar. Poderia, por exemplo, tornar-se o primeiro país verdadeiramente digital, com uma sociedade organizada em rede e que se regesse totalmente por princípios de governo electrónico: e-saúde, e-educação e e-eleições. A nossa administração pública seria regida pela prestação de serviços moldados aos interesses próprios de cada cidadão. Outro país pequeno, a Estónia, já está a trilhar este caminho, com o apoio da União Europeia. E porque não nos tornarmos um verdadeiro país marítimo, associando a nossa imagem global e o nosso crescimento a todo o potencial que o mar nos reserva, oriundo das energias e biotecnologias, da pesca e turismo náutico ou da logística de transportes? A atual Zona Económica Exclusiva (ZEE) de Portugal, faixa marítima com 200 milhas de largura, tem uma área que é 20 vezes a do território "terrestre". Nos próximos anos, essa área poderá ser alargada à dimensão da Índia, 40 vezes superior à nossa área terrestre, no caso de uma proposta apresentada à ONU ser aceite.

Portugal dispõe de alternativas ao pessimismo. Eu não gosto muito de usar citações, mas não resisto às palavras de Thomas Jefferson: "Um homem com coragem, faz uma maioria." Não são precisos muitos para mudar um país.