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As novas amazonas

Rodrigo Tavares

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O Brasil inventou a "mulher bombada". As coxas grossas de jogador de futebol, os ombros largos de nadador, ou a barriga musculada de halterofilista tornaram-se os novos padrões de beleza

Rodrigo Tavares

Qualquer estrangeiro que chegue ao Brasil fica surpreendido com a obsessão brasileira por higiene e imagem. Já o escrivão de Pedro Álvares Cabral tinha ficado admirado com a limpeza dos índios, que se lavavam várias vezes ao dia, eram depilados e tinham os dentes alvos. Nessa altura, era comum para um europeu tomar apenas dois ou três banhos por ano. O culto e o respeito pelos hábitos de higiene escalou para uma cultura da beleza e da imagem e o Brasil representa hoje o terceiro maior mercado de cosméticos do mundo e o segundo maior mercado de cirurgias plásticas. Em qualquer grande cidade brasileira, o número de manicures e de farmácias (onde se vendem produtos de beleza) supera o número de lojas de alimentação. É praticamente impossível encontrar uma idosa com cabelo branco ou uma mulher, independentemente da classe social, que não pinte regularmente as unhas.

Nesta cultura do espelho, o corpo da mulher brasileira tem servido de laboratório para novas tendências mundiais de consumo e de beleza. Seja nas favelas seja em clínicas de cirurgia plástica, as brasileiras vão "inventando moda" (expressão muito popular no Brasil). Como reconhecem os profissionais da beleza e do entretenimento, o que é plantado aqui pode ser colhido em qualquer país.

Em tempos muito recentes, o Brasil inventou a "mulher bombada" (gíria para mulher que toma esteroides anabolizantes, como a testosterona). Após tanta experiência com o corpo, as mulheres brasileiras decidiram inovar - tornaram-se homens. Se inicialmente era uma fenómeno circunscrito à periferia de São Paulo ou do Rio Janeiro e a dançarinas de funk, hoje elas estão em todo o lado - na TV, no Carnaval, nas revistas. Tornaram-se populares e virais. As coxas grossas de jogador de futebol, os ombros largos de nadador, ou a barriga musculada de halterofilista tornaram-se os novos padrões de beleza. De tão inusitadas, estas mulheres destacam-se necessariamente na demografia brasileira. O país pode ser a sétima maior economia do mundo, mas a sociedade brasileira ainda preserva mecanismos medievais de subjugação feminina. Com uma escolaridade ainda baixa, as mulheres encontram na estética a sua ferramenta de poder e ascensão social. Hoje ouvi Larissa Cunha  dizer que quando venceu o Campeonato do Mundo de Culturismo, em 2010, era insultada na rua por homens que condenavam o seu corpo hipermusculado. Agora, diz-se "aceite e desejada". Até onde vão as mulheres para sobreviver e se destacarem em sociedades machistas?