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Um elogio do bom senso

Pedro Norton

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Em tempos como os que vivemos, há recuos que são sinónimo de uma força tranquila e há avanços que são prova de mal disfarçada fraqueza

1. Já foi sobejamente comentado mas vale a pena voltar a sublinhá-lo: a forma como correu a manifestação do passado dia 15 de setembro foi uma prova de maturidade cívica e de bom senso da sociedade portuguesa. Os tempos que vivemos são difíceis e perigosos. O desespero bate à porta de muitas famílias. Os populismos espreitam. Era muito fácil que tudo tivesse corrido mal. Basta olhar para o que se tem passado na vizinha Espanha onde a procissão vai ainda no adro. Felizmente, assim não foi. A lição dada ao País (e à Europa) fica obviamente a crédito dos manifestantes. Mas num país pouco dado a reconhecer o mérito, convém não esquecer também as forças da ordem. 

2. Não se pode ser preso por ter cão e por não ter. Não faz sentido que o primeiro-ministro e o Governo sejam unanimemente criticados por avançar com a proposta de revolução da TSU e sejam agora igualmente crucificados porque a retiram. Não há caminhos fáceis. E Portugal dispensa, precisa de dispensar, os populismos bacocos, os facilitismos enganadores, o taticismo imediatista, as vinganças espúrias, as vitórias de Pirro. Em suma, Portugal dispensa, sobretudo no atual momento, os quadros mentais em que foi educada boa parte da nossa elite política. 

3. Mas a responsabilidade por esta esquizofrenia malsã que exige dos governantes, simultaneamente, uma coisa e o seu contrário não pode ser apenas assacada à classe política. Todos nós, comentadores, analistas, jornalistas, cidadãos temos a obrigação de tomar consciência de que vivemos momentos de emergência nacional. Não faz sentido que, num quadro desta gravidade, se avaliem recuos, cedências, compromissos e até erros grosseiros com base numa grelha de análise política própria dos jogos pueris das juventudes partidárias. O que está em causa é muito mais do que saber quem sobe ou quem desce, quem avança e quem recua, quem cede e quem não cede. Em tempos como os que vivemos, há recuos que são sinónimo de uma força tranquila e há avanços que são prova de mal disfarçada fraqueza. Não sinalizar isto é perpetuar um jogo perigoso de marialvice política que não conduzirá a lado nenhum. 

4. Mas é bom que o Executivo retire as lições certas do episódio da TSU. Só não se engana quem não decide. Recuar foi, repito, um ato de bom senso. Seria uma pena que o gesto não fosse agora acompanhado por um esforço honesto para compreender, com toda a humildade de quem tendo convicções não pode ter certezas absolutas, as razões profundas da indignação que se levantou. Fazer política é também isto. 

5. Vale a pena sublinhar, ainda, o papel do Presidente da República. A avaliar pelo que é conhecido, o Presidente agiu, nos bastidores, com eficácia e discrição. Cedeu ao impulso de falar cedo demais, resistiu às pressões, geriu o silêncio. E, na hora da verdade, veio demonstrar que, contra muitas previsões, os portugueses sempre podem encontrar no Chefe de Estado a válvula de escape de que precisam nos momentos de maior tensão do regime. É saudável sinalizar que há instituições que funcionam.

6. A imprensa anglo-saxónica foi surpreendentemente lesta a criticar o recuo do Governo português. Com amigos assim...